Eu adoro animais, mas não sou vegetariana

 
 Photo by  Stoica Ionela  on  Unsplash

Photo by Stoica Ionela on Unsplash

 

Todos nós já nos cruzámos com alguma pessoa vegetariana ao longo da nossa vida. Muito provavelmente, nem nos apercebemos logo que ela era vegetariana, porque não tinha aparência de hippie como nós pensamos que os vegetarianos têm sempre. O momento em que tudo descobres que alguém é vegetariano é sempre um pouco constrangedor, no mínimo. Inconscientemente, ficamos sempre um pouco nervosos, um pouco reservados e, de repente, temos consciência que existe ali uma divergência de opiniões, quase como uma barreira. Grande parte das vezes, a pessoa acaba por dizer que é a sua escolha de vida, mas que não tem problemas com a tua, que cada um põe o que quer no prato e continuam amigos, na boa. Esta é a atitude mais saudável e a que, felizmente, a maior parte dos meus amigos vegetarianos têm.

Mas muitos não têm essa atitude. Hoje em dia, o vegetarianismo tem-se tornado cada vez mais uma moda. Cada vez mais as pessoas aderem ao vegetarianismo, umas por razões de saúde, mas grande parte por razões éticas. Até aqui tudo bem. Eu apoio e adoro a forma como os vegetarianos e os vegans defendem os direitos dos animais tão apaixonadamente, e a forma como sacrificaram e mudaram a sua dieta para serem mais compatíveis com as suas crenças (ao longo do texto vou dizer só vegetarianos para simplificar, mas tenho consciência da diferença entre estes dois conceitos). O que eu não gosto é a superioridade moral que alguns vegetarianos pensam ter em relação aos outros. Muitos julgam as pessoas que comem carne, e chamam-nas de monstros, assassinos, que se acham superiores aos animais e que não qualquer respeito pela vida dos outros seres vivos.

Desde que me tornei blogger, já fui algumas vezes confrontada com a pergunta "Porque é que não és vegetariana? Pareces-me ser uma boa pessoa, com bons valores, defensora dos animais... Mas comer carne não vai de encontro aos teus valores, alguma coisa está errada aí..." . Também me fazem esta pergunta na "vida real", mas não com tanta frequência como me fazem na Internet. Também já constatei de cada vez que alguém aborda as razões pelas quais não é vegetariana, há sempre um grupo de pessoas que se junta para a julgar.

Há uns tempos atrás eu li um slogan de uma campanha de ativistas vegetarianos que dizia "Tu não podes adorar animais se os comes". Fiquei bastante revoltada com o que li, porque é uma afirmação bastante ignorante e injusta. Poderia dar-vos o meu exemplo, mas tenho uma amiga minha que é um exemplo muito melhor do que eu. Ela sempre adorou toda a vida animais. Tem muitos animais de estimação, cães, gatos, peixes, até pássaros. Já foi voluntária em vários projetos para cuidar de animais e já ajudou a salvar alguns. Há dois anos realizou o seu sonho de entrar em Medicina Veterinária. E, no entanto, ela come carne e peixe regularmente. Ela é apenas um exemplo, porque eu conheço muitas mais pessoas que são defensoras ativas de animais e que comem carne.

Eu sempre adorei animais toda a vida, e sempre fui grande defensora deles. Nunca usei casacos de pele verdadeira (sempre sintética), nunca maltratei animais, não sou a favor de touradas e sou totalmente contra qualquer forma de entretimento que os envolva. Mas também a carne sempre fez parte da minha dieta, e não me sinto minimamente culpada por isso, nem sinto que isso vá contra as minhas crenças. Não estou a criar uma dissonância cognitiva por viver desta forma.

Se eu podia ser vegetariana e estar disposta a alterar a minha dieta, a procurar alternativas, de forma a defender ainda melhor os animais? Sim, podia. Mas, no meu caso, nem seria o mais saudável para mim. Dado a um problema de saúde que tive recentemente, não posso comer grande parte dos alimentos que compõem uma alimentação vegetariana. Eventualmente, quando estiver melhor (já estou a melhorar, aliás) vou tentar comer mais variedade de legumes e consumir menos carne (era o que já estava a planear fazer antes de ficar doente), mas nunca vou cortar completamente porque, sinceramente, gosto de carne e gosto de ter uma alimentação variada.  E não sou pior pessoa por isso, nem tão pouco os meus esforços pela defesa dos animais são em vão.

O problema aqui não é comer carne. O problema é a quantidade de carne que consumimos e a forma como a produzimos. Comer carne é o ciclo natural da vida. Ninguém acha imoral quando um lobo mata um coelho para comer. Por isso, porque é que acham imoral quando uma pessoa mata um coelho para comer? Muita gente esquecem-se disto, mas nós também somos animais. E, como tal, também temos instintos e necessidades para serem satisfeitas. Claro que podemos ser saudáveis na mesma sendo vegetarianos, mas com a ajuda de suplementos ou procurando alternativas. Mas nem todos conseguimos isso, seja por questões de saúde, seja por razões económicas, seja simplesmente porque gostamos de ter uma alimentação variada.

Não é preciso cortar radicalmente a carne da nossa dieta. É preciso é comermos menos carne e mais variedade de alimentos, além de repensar seriamente a forma e protestar contra a forma como as indústria da carne estão a criar e a tratar os animais. A indústria da carne, em geral, está a criar muitos animais em condições terríveis, a dar-lhes comida pouco saudável para fazer com que engordem mais depressa e está a matar milhões de animais desnecessariamente, quando poderia matar muitos menos. Muitos dos animais vivem num regime de medo e tortura, com tão pouco espaço que mal podem andar ou deitar-se confortavelmente e, muitas vezes, fechados em autênticos barracões em ponto grande, sem luz do dia.  

Há muitas mudanças que têm de ser feitas, mas podemos começar a mudar já hoje. Como é que as pessoas que não são vegetarianas podem contribuir para acabar com este flagelo? Reduzindo os seus consumos de carne, optando por consumir mais alimentos da roda de alimentos, consumindo menos carne processada, comprando carne a produtores locais, e reduzindo os desperdícios. Se a maior parte das pessoas reduzisse o seu consumos de carne para, por exemplo, três vezes por semana (um dos princípios, aliás, da dieta mediterrânea), o número de animais que não seriam abatidos e o impacto ambiental já seria muito menor. São pequenas mudanças que parecem não levar a nada, mas que poderiam ser bastante significativas se todos nós o fizéssemos.

As intenções de muitas pessoas são boas mas falham neste ponto: valorizam muito mais a longevidade de um animal do que a sua qualidade de vida. Muitos estão concentrados apenas em "se eu não comer carne, não estou a contribuir para que matem mais animais". Eu cá acho que, se calhar, a  qualidade e experiência de vida destes animais, muito mais a sua longevidade. Porque, quer queiram, quer não para viver vão ter que matar sempre algo. As plantas também são seres vivos. Podem dizer "ah, não é a mesma coisa." Para mim, é. E não é ignorância da minha parte dizer isso. Obviamente que isto não pode servir de desculpa para continuarmos a consumir carne desenfreadamente nem tão pouco para desvalorizar os esforços dos vegetarianos. É só para termos noção que não é possível termos uma existência 100 % cruelty-free. 

Portanto, vamos acabar de uma vez por todas com esta batalha dos vegetarianos/vegans contra as pessoas que comem carne. Vamos parar de ver o vegetarianismo como uma religião e vamos encará-lo como um estilo de vida tão aceitável como ser omnívoro. E, sobretudo, vamos parar com estas frases de "não podes gostar de animais se come carne", "não podes ser veterinário se comes carne" ou "não podes ser ambientalista se não és vegetariano". Além de absurdo, é extremamente cansativo. Mas aceitar de uma vez por todas que existem diversas formas de contritibuir para a defesa dos direitos dos animais, sendo vegetarianos, semi-vegetarianos ou omnívoros, e que nenhum destes esforços são em vão. O que cada um de nós come é uma escolha pessoal que vai muito mais  além de o gostarmos ou não de animais. Existem escolhas melhores do que outras, é certo, mas não existe uma única escolha certa, podem existir várias. Na vida nem tudo é preto nem branco, e esta temática não é exceção.


Margarida Gonçalves.png

Margarida Gonçalves, autora do blog Life of Cherry. É natural de Braga, sonhadora mas com os pés bem assentes na terra. É uma "devoradora de livros" e sonha viajar e ver com os seus próprios olhos o melhor que este mundo tem para oferecer. Sigam as suas aventuras no seu blog, Facebook, Twitter e Instagram.