O que o feminismo (não) é

 
 Photo by  T. Chick McClure  on  Unsplash
 

De cada vez que alguém diz "Eu sou feminista", muitas pessoas entram em pânico e fogem (muitas vezes literalmente). Existem tantos mitos e definições falsas sobre o feminismo que até dói. Isto tudo é faz com que as pessoas tenham medo de se afirmar feministas e rejeitem este movimento. Mais grave ainda é quando são as próprias mulheres a rejeitar este movimento. Foi por causa destas e de muitas outras coisas que eu demorei muito tempo a afirmar-me como uma apesar de, inconscientemente já o ser.

Parece-me estúpido que haja tanta revolta e discussão à conta de um conceito que defende nada mais nada mesmo do que a igualdade de géneros. É uma coisa tão simples, que devia ser senso comum e, no entanto, as pessoas complicam e fazem um debate todo à volta de algo que devia ser apenas a norma. Mas não o é porque, apesar de todos os protestos, discussões e publicações que se têm feito sobre o tema, há quem continue em insistir em deturpar o feminismo e perpetuar o sexismo. Por isso, vamos esclarecer o que é que o feminismo (não) é, de uma vez por todas.

1. O feminismo é odiar os homens: Este é o maior mito de todos. Muita gente pensa que as feministas querem lutar pelos seus direitos e que, para isso, têm que odiar os homens e ser superior a eles. O feminismo não é nada disso. O feminismo defende a igualdade de sexos, ou seja, o principal objetivo do movimento é tornar o mundo num lugar justo para toda a gente, em que a igualdade e o respeito predominem, independentemente do sexo.

2. Não é vitimizarmo-nos: Até dói ouvir que parte da razão pela qual muitas pessoas rejeitam-se a ser feministas é porque não querem " fazer-se de vítimas". Dizer isto aos feministas significa que também estão a ignorar as pessoas que são abusadas e/ou que vêem os seus direitos diminuídos à conta do sexismo. O feminismo é expor as injustiças que são cometidas a mulheres, na esperança que se faça alguma mudança. Lutamos pela defesa dos direitos das mulheres da mesma forma que lutamos pelos direitos da comunidade LGBTQ, pelas pessoas de várias etnias e raças, pelas pessoas com deficiências e muitas mais.  Defender os direitos de outros seres humanos não é desempenhar o papel de vítima, é fazer aquilo que é correto. 

3. Não é um movimento extremista: Há um grupo (felizmente pequeno) de feministas que são  um bocado extremistas, histéricas até, e que acabam por manchar a imagem do movimento todo, fazendo com que se criem mais mitos. São as que dizem às mulheres para pararem de se maquilharem, para se pararem de depilarem, para pararem de usar desodorizante, e muitas outras coisas que, além de parvas, tiram credibilidade a este movimento. A essas mulheres eu digo "O que é que o meu corpo tem a ver com o movimento?". Que eu saiba o corpo é meu, e eu faço aquilo que eu quero com ele. Se eu quiser depilar-me, maquilhar-me e muitas outras coisas, estou no meu direito. Assim como quem não quer também o está. Afinal, estamos aqui para defender direitos e igualdade, e igualdade significa que somos livres para decidir aquilo que é ou não é atraente, e somos livres para fazer aquilo que queremos com o nosso corpo.

4. Não é querer um tratamento especial/privilégios: Há quem diga que nós queremos é ser tratadas de forma diferente, que queremos ser mais que os outros, e termos privilégios. Ter os mesmos direitos que os homens não é um privilégio. A igualdade não é um privilégio. Ter autonomia em relação ao nosso próprio corpo não é um privilégio. Exigir salários iguais aos dos homens não é um privilégio. Isto tudo não são nada mais nada menos do que direitos básicos.

5. Não é destruir o conceito tradicional de casamento: O movimento feminista não pretende acabar com os papéis tradicionais dos géneros no casamento e na educação das crianças. As feministas não pretendem divorciar-se e/ou virar lésbicas, não é isso que está em questão. Se fazes parte de um casal hetero a educar uma criança, está tudo bem. Se és lésbica e queres adotar uma criança, também está bem. O feminismo é um movimento que pretende incluir pessoas com todo o tipo de preferências e interesses.

6. Não é andar por aí feitas malucas e zangadas: Apesar de existirem muitas feministas zangadas e loucas (provavelmente por uma boa razão, porque estão fartas de não serem levadas a sério), nem todas nós somos assim. Como em tudo na vida, para defender aquilo em que acreditamos temos que fazê-lo de uma forma educada e respeitadora.

7. Não é inventar problemas onde eles não existem: Muitos portugueses dizem isto porque vivemos num país em que estes problemas nem têm muita dimensão (apesar de ainda existirem muitas desigualdades, nomeadamente no que diz respeito aos salários e à forma como as mulheres ainda são tratadas), porque se tivessem num país em que tivessem de lutar para estudar, para exprimir a vossa opinião ou até simplesmente para usar uma roupa mais reveladora, eu queria ver se diziam o mesmo.  A diferença entre sexos é um problema grave que ainda existe e, como tal, tem que ser resolvido. E não vai ser resolvido se continuarmos a tentar " abafar" a situação e fazer de conta que está tudo bem. É necessário falar e lutar, principalmente por aqueles que não podem fazer o mesmo.

Estão a ler esta publicação graças ao facto de, no passado, muitas pessoas terem lutado pela mudança. Se hoje vivemos num ambiente com mais tolerância e mais igualdade ( apesar de ainda se ter que evoluir mais nesse sentido) foi por causa de pessoas que, conscientes da sua importância, abraçaram o feminismo. Portanto, larguem os vossos receios em relação a este conceito e abracem-no também.


Margarida Gonçalves.png

Margarida Gonçalves, autora do blog Life of Cherry. É natural de Braga, sonhadora mas com os pés bem assentes na terra. É uma "devoradora de livros" e sonha viajar e ver com os seus próprios olhos o melhor que este mundo tem para oferecer. Sigam as suas aventuras no seu blog, Facebook, Twitter e Instagram.