#Adulting: Somos uma geração paralisada pela escolha?

 
 

Às vezes, quando oiço as histórias que pessoas mais velhas partilham comigo, aquelas em que dizem " no meu tempo" vezes sem conta, penso no quanto a vida parecia ser mais simples antigamente, pelo menos em certos aspetos. Claro que existiam muitas outras dificuldades pelas quais eu estou grata não ter que passar (a fome, a falta de condições de higiene, a falta de liberdade...), mas também existiam mais certezas. É inacreditável pensar que, aos vinte anos, muitas pessoas já tinham uma carreira estável, estavam casadas, tinham filhos e objetivos de vida bem definidos. Nesse tempo, se fizéssemos um estudo sobre todos os jovens, veríamos que uma grande parte estava já a avançar e a atingir objetivos ao mesmo ritmo.

Mas quando olho para a nossa geração, vejo que não poderíamos ser mais diferentes. Olho em volta para os meus amigos e colegas, e todos nós estamos a seguir o nosso próprio caminho. Alguns de nós estamos a terminar o curso, outros entraram agora na universidade, outros foram logo trabalhar, outros decidiram ir para o estrangeiro, outros já estão a morar com as suas caras metades....

Somos a geração que tem, mais do que nunca, acesso a todo o tipo de informação e oportunidades. Se queremos saber algo, já não precisamos de passar horas numa biblioteca, basta uns minutos no Google para obtermos a informação que queremos. Se queremos falar com alguém, não temos que visitar a pessoa, usar um telefone fixo ou escrever uma carta, basta uns cliques e enviamos uma mensagem. Se queremos comprar uma peça de roupa nova, temos milhares de lojas por onde escolher. Temos tantas alternativas para tudo que seriam impensáveis no tempo dos nossos pais e avós.

Vivemos numa época entusiasmante para nós, jovens. Nunca tivemos tantas chances quer a nível profissional, quer a nível de vida, quer a nível de liberdade, e as mulheres têm sido particularmente beneficiadas. A sociedade já não espera que assentemos aos vinte anos, e as mulheres já não têm que ficar em casa para cuidar dos filhos.

Ter muitas opções, muitas possíveis escolhas, um mundo infinito de oportunidades parece ser incrível, não é? A verdade é quem nem sempre o é. Ter a possibilidade de fazer tantas escolhas pode estar a fazer com que não estejamos a fazer nenhuma de todo. Em vez de passarmos para a ação, muitas vezes ficamos com medo de fazer o que quer que seja, ficamos como que paralisados, sem saber o que fazer.

Estamos tão stressados e pressionados a viver a nossa melhor vida, a encontrar a pessoa certa, a escolher a profissão certa, a casa certa, etc., que não conseguimos decidirmo-nos em nada, questionamo-nos se as decisões que já tomámos foram as mais acertadas ou, pior, se já deixámos passar excelentes oportunidades porque acreditávamos que outras melhores viriam. Claro que pode poderão existir oportunidades melhores pelas quais vale a pena esperar, mas e se nos já tiverem sido dadas as mais promissoras? Será que já deixámos passar as melhores coisas da vida com medo de estarmos a tomar uma má decisão?

Parece que a  maior dificuldade aqui não será nas escolhas em si, mas naquilo que significam. Escolher algo ou alguém significa fazer um compromisso, e fazer um compromisso significa descartar as outras opções, fechar portas e apostar todas as nossas cartas em algo que pode ou não resultar. 

É absolutamente avassalador fazer uma escolha hoje em dia, tanto que acabámos por ficar parados no mesmo sítio. Eu própria me sinto culpada por isto: já deixei passar tantas oportunidades por achar que melhores viriam. Umas vezes foi uma boa decisão, outras vezes nem por isso, mas aquilo que eu concluí é que eu não iria a lado nenhum sem fazer opções.

E é isso que eu quero recordar hoje a todos os jovens. Lá porque existem muitas opções não quer dizer que exista uma perfeita para nós, e acreditar nisso impede-nos de avançar. Não precisamos de ter a carreira mais invejável, a melhor casa, o carro mais topo de gama, comer nos melhores restaurantes nem de sermos famosos. Precisamos é de ser felizes, independentemente do que tenhamos ou sejamos. E não o seremos se não arriscarmos e formos demasiado ponderados. Porque é melhor decidirmos fazer algo e darmos o nosso melhor, mesmo que no final se revele ser a coisa errada para nós, do que não tentar de todo.


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Margarida Gonçalves, autora do blog Life of Cherry. É natural de Braga, sonhadora mas com os pés bem assentes na terra. É uma "devoradora de livros" e sonha viajar e ver com os seus próprios olhos o melhor que este mundo tem para oferecer. Sigam as suas aventuras no seu blog, Facebook, Twitter e Instagram.