Desligando o chip de emoções

 
 Photo by  Gabriel Matula  on  Unsplash
 

No meu segundo ano de Enfermagem, estagiei durante oito semanas no serviço de Oncologia. E uma das primeiras coisas que me disseram foi que tinha que aprender a desligar o chip de emoções. Iria ver muitas pessoas a morrer, algumas muito jovens, e caso chorasse todas as vezes que alguma coisa corresse mal, não iria conseguir viver a minha vida. Iria fazer todas as coisas banais do meu quotidiano, como ir às compras, passear ou sair à noite, a pensar nos doentes com quem passava a semana, e naqueles que já partiram e que nunca mais teriam oportunidade de viver normalmente. Apesar desta lição ter feito imediatamente sentido na minha cabeça, foi difícil colocá-la em prática. Passei semanas a chorar com o sofrimento dos meus doentes, com a morte de muitos, com o desespero dos seus familiares, mas eventualmente tive que por em prática o conselho de desligar as minhas emoções depois do horário de trabalho. Isso não me tornou numa pessoa mais fria, ou numa (futura) enfermeira menos empática. Tornou-me apenas num ser humano a tentar sobreviver à dificuldade e ao medo. 

Não pensem que são só os profissionais de saúde que têm de estar munidos com este mecanismo de defesa. É uma capacidade útil para qualquer pessoa nos dias de hoje. Basta ligar a televisão ou abrir uma janela do browser, que a conclusão é que o mundo parece que estar a ruir. 

A lista é gigante: guerra, Trump, o Estado Islâmico, atentados por todo o lado (alguns muito perto de nós), pobreza, fome, tsunamis, terramotos, cheias, doenças, ameaças de bombas... E todas as manhãs temos que nos levantar e continuar a nossa vida normalmente, mesmo sabendo que tudo isto está a acontecer à nossa volta. Às vezes, é difícil não sucumbir ao medo e desesperar com a humanidade, e com aquilo em que o nosso mundo se está a tornar. 

Sinto que é difícil não deixar que o medo tome conta de nós e viver em alerta constante, como eu vivo, é desgastante. A vida não é para estarmos sempre a ver como sair de um local público em caso de emergência e ficar paralisada de medo e deixar de viver o dia-a-dia a 100%.

O meu segredo para viver uma vida mais feliz, foi aprender a relativizar as coisas e atribuir a cada problema a carga emocional que merece. Tive que aprender a seguir a minha vidinhae a rir-me, mesmo com toda a desgraça que acontece diariamente. Comecei a sair mais, respondendo "eu não posso parar a minha vida" quando a minha mãe me pergunta "mas não tens medo de todos estas ameaças e atentados que estão a acontecer?". 


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Margarida Gonçalves, autora do blog Life of Cherry. É natural de Braga, sonhadora mas com os pés bem assentes na terra. É uma "devoradora de livros" e sonha viajar e ver com os seus próprios olhos o melhor que este mundo tem para oferecer. Sigam as suas aventuras no seu blog, Facebook, Twitter e Instagram.