Emigrantes e Expats

Agosto em Portugal: calor, praia e festas da terrinha. Todos nós conhecemos ou temos alguém na família que na década de 60 e 70 se fez à vida e foi à procura de novas oportunidades fora do país.

Hoje assiste-se ainda a uma segunda vaga de emigração, mas diferente. Antigamente eram pessoas que apesar de desesperadas, não tinham qualquer formação e foram à descoberta. Agora, se bem que a única coisa em comum é o desespero, 90% das pessoas que emigram são licenciadas, que não conseguindo arranjar emprego em Portugal (isto é, sem ser através de cunhas e tachos, ou que em condições precárias a ganhar migalhas), vão para o estrangeiro em procura de oportunidades em áreas altamente especializadas.

Eu sou uma delas, se bem que eu nem sequer tentei arranjar emprego em Portugal. Se fiquei triste e aborrecida com o meu próprio país? Hell yeah! Mas ficar amuada em casa não era uma solução! Fiz as malas e lá vim eu para terras de sua majestade... 

Agora que já estou no Reino Unido há tempo, dei numa de fazer um estudo sociológico do pessoal que veio comigo e do pessoal que já cá estava há mais tempo que eu. Depois do meu estudo (empírico) posso afirmar com alguma segurança de que há claramente dois tipos de emigrantes: o grupo que veio viver e o grupo que veio sobreviver. 

Estranho? Não muito, além disso, estes dois grupos não se misturam, pois, os temas de conversa são completamente diferentes e o modo de viver então nem se compara.

Quem veio para viver tem as prioridades de vida básicas orientadas de forma diferente. A procura de casa é feita de modo a coabitar com o mínimo de pessoas possível. Sabem como é, quanto mais pessoas na mesma casa, maiores são as chatices. A casa pensada para viver com conforto o que passa pela escolha cuidada de um sofá e uma televisão para os momentos de descanso em casa, em condições para ter roupa lavada todas as semanas. Os tempos passados fora de casa, são tempos de passeio, para conhecer novos sítios, novas pessoas, novas culturas... e sair à noite para desanuviar depois de uma longa semana de trabalho, não é algo reservado às pequenas escalas de fim-se-semana em Portugal.

Quem veio para sobreviver tem uma vida diferente, até porque normalmente para eles, o objetivo é ao fim de 2/3 anos voltar para Portugal, tendo a tal experiência que todos os anúncios de emprego em Portugal pedem e não oferecem. Então, ter uma casa confortável e com todas as amenidades é algo que não é prioritário, pois a ideia não é permanecer no longo prazo e a única coisa além da experiência que levam de volta, é o dinheiro que acumulam debaixo do colchão.

O facto de viverem de formas totalmente diferentes faz com que não haja muita coisa em comum e isso faz com que a convivência esteja limitada a idas ao consulado, filas de embarque e pouco mais. Ter um pé de meia é importante, e ter planos para regressar também, mas entre agora e o momento de regresso não me quero privar de ter qualidade de vida e, basicamente, de viver. Se pensam que é só aqui no Reino Unido que isto acontece, sei de fonte segura, de uma amiga que vive na Suíça, que lá temos os mesmos dois grupos.

Confesso também uma coisa. Ao longo de todos estes anos a palavra “emigrante” ganhou uma conotação que me irrita e que faz com que não me reveja. (Quase que prefiro a expressão inglesa "expat"). Na mente coletiva da nossa nação é o equivalente a usar sapatos brancos, a camisola da seleção, o fiozinho de ouro por cima e ir às festas da terrinha em Agosto. Quero esclarecer que branco não é de todo a minha cor, a camisola da seleção fica reservada e muito reservada apenas a jogos da mesma - pequena nota pessoal, na verdade só uso o cachecol porque nem a camisola tenho - e o fiozinho de ouro… no comments.

Seja qual for a forma que escolherem viver fora do país, não o representem mal e ajudem as pessoas do vosso país de acolhimento a verem Portugal com novos olhos, que vão além das caricaturas do “Manel” e da “Maria”, e que lhes permitam ver tudo o que mudou no nosso país e que os ajudem quer a eles, quer a nós a ver a emigração portuguesa com outros olhos.