O Mito da Mãe Perfeita

 
 Photo by  Jonathan Hoxmark  on  Unsplash
 

Não é fácil falar sobre ser mãe: é confuso, é emocional e é difícil de tranformar ideias em texto.

Gostaria de começar por falar da ideia que os media passam do que é “ser-se mãe”. Desde pequenas que aprendemos que devemos ser mães maravilhosas, cuidadosas, apaixonadas e que o instinto materno nos irá  atingir como um raio, de forma fulminante, a partir do momento em que sabemos que estamos a criar um bebé dentro de nós. Isto tudo parece maravilhoso mas nem sempre (ou quase nunca) isto acontece instintivamente. Em vez de usar a imagem de um raio, a maternidade é mais como o mar. Começa primeiro por levar tudo à frente, como uma onda, quase sem termos tempo de perceber o que raio se está a passar... E depois lentamente o ser-se Mãe vai crescendo e aumentando como a maré.

Facto: a realidade é sempre diferente das nossas expectativas.

Não que tivesse uma imagem muito romântica da maternidade, e "não querer ser mãe" nunca foi uma questão. Nas primeiras semanas não foi mau, apesar de acordar várias vezes para dar de mamar, o rapazinho devia ainda estar atordoado por isso era bastante calmo.

Olhando para trás, devia ter aproveitado para descansar ao máximo mas não, a ideia de “eu tenho um filho e vou conseguir fazer tudo” estava demasiado activa em mim, quando o que devia estar na minha mente era que tinha estado quase 48h sem dormir e o meu corpo nem sequer tinha recuperado do parto! Lá andava eu a limpar a casa, passar roupa... Maluquinha de todo.

Depois das primeiras semanas de atordoamento, o bebé começou a fazer das suas: cólicas, lutas contra o sono, o choro desesperante... Tal como já tinha dito nesse post, foi uma temporada do inferno, patrocinada pela nossa inexperiência como pais, mas felizmente, aos poucos foi passando.

O que não foi passando foi a espiral de pensamentos negativos que iam girando na minha cabeça, como mantras: tu não sabes o que estás a fazer; não estás preparada para ser mãe, és uma péssima mãe, só tu no universo não tens instinto maternal, entre outros clássicos de baby blues. Dava comigo a chorar compulsivamente com o bebé nos braços. Era tudo um banho de lágrimas.

Já não é a primeira vez que toco neste tema dos baby blues mas ainda não tinha conseguido descreve-los como deve ser. É algo complicado de explicar pois pensava que as pessoas iam persar que eu era uma péssima mãe: "mas que raio de mulher não fica feliz com o seu bebé nos braços?" - sim, esta era uma das habituais na minha cabeça na altura. Agora? Agora vejo que é completamente normal, maior parte passa por isso, contudo, simplesmente parece ser um grande tabu.

O problema é esse mesmo, há a noção, criada pela sociedade, de que deveria ser o momento repleto de rosas e passarinhos a voar, quando, na verdade é normal haver momentos de felicidade plena, de tristeza, irritabilidade, choro (muito) fácil, cansaço constante, desinteresse por si própria e até mesmo do bebé.

Quando estudei Obstetrícia, já se dizia que os baby blues ocorrem em 85% das mulheres. Bem mais de metade! Infelizmente é um tema quase taboo, que tem de ser discutido, pois quando acontece de forma mais grave e duradoura, pode levar a depressão pós-parto que é um outro assunto muito sério.

Eu podia explicar-vos as alterações que são os factores implicados dos baby blues e depressão pós parto: uma queda abrupta de hormonas, por vezes a falta de suporte familiar ou dificuldades económicas e ainda historial pessoal ou familiar de depressão. Podia explicar cada um deles, mas a verdade é que nenhum deles, verdadeiramente, explica como uma mulher se sente durante esta primeira fase de ter um bebé.

É normal que muitas vezes as mães sejam inundadas com as perguntas “será que isto é normal?” ou ainda “será que estou a fazer alguma coisa mal?”, já para não falar daquele sentimento de culpa tão omnipresente na vida de uma mãe. Tal como já tinha mencionado antes, são mantras que estão constantemente a passar na nossa cabeça em repeat, deixando-nos numa ansiedade estratosférica.

Eu que nunca fui muito de chorar, nesses primeiros meses, chorei tanto mas tanto, que pensei que não ia conseguir parar! Parece exagerado contudo era assim que me sentia. E depois não era só o facto de chorar mas sim as crises de choro angustiante, em que sentia um aperto tão grande que tinha dificuldade em respirar.

Eu já tinha passado por uma depressão e ter passado pelos baby blues, marcou-me bem mais! É difícil de explicar mas estando depressiva, parece que o nosso cérebro e o nosso corpo estão dormentes. Não queremos sentir nada e fazemos por isso. Estamos dentro de uma caixa fechadinha dentro da nossa cabeça em posição fetal e dali não queremos sair.

Os baby blues são um bocadinho diferente. O nosso cérebro não está dormente, estamos a processar imensa informação e a tentar assimilar tudo, a tentar funcionar com apenas algumas horas de descanso, a cuidar de um ser que precisa de nós para tudo. O nosso corpo está zangado connosco: passou por muito e precisa do tal descanso que teimamos em não dar. Passo a imagem de estarmos dentro da nossa cabeça, a bater contra as grades de uma jaula, a gritar em plenos pulmões que queremos cuidar do nosso bebé e dar-lhe todo o carinho do mundo mas a porcaria das barras continuam lá, impedindo-nos de fazer o que queremos.

A jaula são as nossas hormonas, que não deixam o nosso corpo corresponder ao que queremos fazer, alimentando o nosso cérebro com ainda mais dúvidas. Tem assim um efeito de síndrome locked-in  (onde os movimentos do corpo inteiro são paralisados com a excepção dos olhos mas continuando as faculdades mentais completamente funcionais), nós a ver a situação como que a ver um filme e a não poder fazer nada sobre o assunto senão esperar que a jaula decida enfraquecer e nos deixar sair.

Demorei quase dois meses a voltar a sentir-me "normal", a conseguir falar, brincar, fazer carinhos ao meu bebé sem começar uma crise de choro. Se um par de meses é normal para "sair" daquela situação? Não sei... mas apenas um dia com baby blues já é longo o suficiente!

Por isso a qualquer futura ou nova mãe ou mesmo às mais experientes ou até para vocês partilharem, eu quero deixar uns conselhos para ver se acabamos com este síndrome de mãe perfeita: a casa por limpar, a roupa por lavar ou passar, o marido, trabalho, tudo fica em segundo, terceiro ou mesmo no fim da lista. O que é importante é que descansem o corpo e a cabeça que está a funcionar a mil.  Além de não ter vergonha de pedir ajuda ou simplesmente pedir para desabafar!

Agora para as mães: independentemente do que te digam ou do que digas a ti própria, espero que saibas que estás a fazer um trabalho espectacular e sabes porquê? Porque é o teu bebé e ninguém o conhece melhor do que tu que és Mãe pois apesar do que se está a passar com o teu corpo e com a tua cabeça, esse amor está-te tatuado, para sempre, na tua alma!

 


 
C.C..png

C.C. é viciada em palavras: as que lê e as que escreve. Sigam as suas aventuras aqui no Peachy e os episódios do seu dia-a-dia à medida que acontecem, no seu blogFacebook e Instagram.