Do outro lado da "marquesa"

 
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Começou tudo à meia-noite, mas tive que esperar até às cinco da manhã para ter contrações “em condições” para ir para o hospital. Mal cheguei fui examinada e como já tinha alguma dilatação fui logo encaminhada para Obstetrícia. Isto não é uma cena de um filme, isto é a minha narração mental do meu trabalho de parto. No entanto, e ao contrário da experiência de muitas mães em trabalho de parto do seu primeiro filho, esta não era uma novidade para mim: eu sou uma profissional de saúde, e esta é uma das minhas áreas de especialidade. Este foi o meu primeiro parto do “outro lado do palco”.

Apesar de em termos técnicos o parto não ter muitos segredos técnicos para mim, uma coisa é estar a fazer uma intervenção a outra pessoa, e outra coisa é ser o alvo dessa intervenção. O facto de ter assistido a tantos partos e cesarianas, ajudou no sentido em que sabia as melhores técnicas, o que era esperado de mim e as minhas opções para cada etapa. O outro lado da moeda é que eu também sabia o que podia correr mal, quando está a correr mal ou as coisas não estão muito bem.

A meio do meu parto, eu apercebi-me que o meu bebé não estava bem porque vi a equipa de Pediatria a preparar-se para intervir. Se este não fosse o meu meio, provavelmente não iria dar conta pois o resto da equipa manteve sempre a calma. O meu olho clínico ajudou a estruturar a minha gravidez e já no hospital, eu já ia com as ideias organizadas: pedir uma epidural e depois puxar este bebé cá para fora!

Chegar ao Hospital

onde os partos acontecem geralmente num quarto individual equipado tal, sem a necessidade de a mulher – neste caso eu -  andar de um lado para o outro e a vantagem da ter privacidade acrescida. 

Quando cheguei ao meu quarto tive um momento bastante engraçado... pousei a minha mala, arranjei as minhas coisas e continuei de pé. A enfermeira que me ia acompanhar disse-me para ficar à vontade, mas só passados uns minutos é que me apercebi que estava no meio do quarto à espera de um doente aparecer: tinha-me esquecido que a doente era eu.

A Epidural

Mais um daqueles assuntos não consensuais: há quem seja a favor, que não há necessidade de a mãe passar por aquela experiência traumática, e quem seja contra, pois desde o inicio dos tempos que as mulheres têm bebés sem epidurais e que menos intervenção médica é sempre a melhor opção. Não estou a tomar partidos nem a querer influenciar-vos - a escolha é vossa -  mas, como disse antes, ser profissional de saúde é bastante ingrato quando nós é que somos os doentes.

Já vi muitos partos que são arrastados porque com as dores, a mãe não está a dilatar o suficiente, ou que é preciso uma anestesia mais "a cima do joelho" se for necessário ir para o Bloco Operatório (se tiver epidural, a anestesia já está feita), entre outras coisas... Além disto, tenho uma escoliose e tinha receio que não fosse suportar as dores de costas juntamente com as dores do parto. No meu caso, como o parto foi no meu hospital, sabia quem eram os melhores anestesistas, e tive o privilégio de poder escolher e de ter o número de telefone pessoal, para entrar em contacto com eles, caso não estivessem a trabalhar. Foi a minha escolha, mas respeito também quem tiver tomado decisões diferentes das minhas.

O Parto

Aqui no Reino Unido, o pai ou eventuais membros da família são encorajados a assistir e a participar no parto, a apoiar a mulher e quando o bebé nasce, cortar o cordão umbilical ou até mesmo prestar os primeiros cuidados, além claro, de tirar imensas fotografias! Neste caso, foi o meu marido que me acompanhou e esteve comigo durante todos os momentos.
Só caso aconteça alguma coisa durante o parto ou se antes do mesmo se descobrir algum problema, é que levam a mulher para o Bloco. No meu caso, não foi necessário... apesar de que no final tivemos um momento menos bom: o meu bebé decidiu brincar com o cordão umbilical e tinha-o à volta do pescoço, mas felizmente correu tudo bem.

Após esta grande aventura, peguei pela primeira vez o meu rebento e tive-o nos meus braços, a berrar em plenos pulmões, e esqueci-me que era profissional de saúde e naquele momento fui simplesmente mais uma Mãe.  Foi uma experiência tão intensa e surreal que fiquei sem mais palavras para descrever. Tudo estava perfeito. 


 
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C.C. é viciada em palavras: as que lê e as que escreve. Sigam as suas aventuras aqui no Peachy e os episódios do seu dia-a-dia à medida que acontecem, no seu blogFacebook e Instagram.