Tirando o "work" de Networking

 
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Todas temos uma amiga assim. Vamos a qualquer lado com ela e ela fala connosco até encontrar alguém melhor para falar. Se for preciso até nos deixa a meio de uma frase, se vir que tem a oportunidade para falar com a pessoa com que realmente quer falar. Afinal, chamar-lhe amiga é capaz de ser demasiado forte, porque quando te convidou para ir com ela, ela só queria ter um buffer no caso de não conseguir falar com as pessoas que realmente queria falar. Entretanto no fim do evento, nós tivemos uma única conversa em profundidade e ela apanhou os cartões de negócio de metade da sala. Há quem lhe chame uma networker eficaz, a meu ver, isto é um exemplo de alguém que consegue resultados no momento (os cartões de negócios) mas que, a longo prazo, como não criou uma ligação significativa, tem contactos que não levam a nada mais que encher a lista do LinkedIn.

Se não fizesse parte do meu trabalho - full disclosure, trabalho em Recursos Humanos - provavelmente, em vez destes eventos, estaria em casa a ver Netflix e a comer M&M’s. Networking não é para fazer amigos e também, diga-se de passagem, além do profissional, muitas vezes não tenho grande vontade de estar entre estranhos a tentar ir além de conversas forçadas. Tenho 35 anos, acho que estou longe de me forçar a fazer coisas que não sou obrigada, em especial se não me trouxerem satisfação.

O que nos leva às questões: 

  • como tirar o “work” de “network”?
  • como criar relações profissionais que valham a pena?
  • será que networking vale a pena?

Vamos começar pelos básicos: networking não é para pessoas tímidas, por isso, por umas horas tentem por a vossa timidez de lado - falar é fácil, mas vocês vão conseguir - e, por amor de Deus (ou de quem quiserem), não utilizem “coragem líquida” como uma amiga minha fez. 

A cena clássica de comparação de cartões de negócios de "American Psycho"

Pensem no que vão precisar: basta estarem apresentáveis e terem cartões de negócios à mão. É ligeiramente antiquado mas eficaz e é uma forma simples de comunicarem.

Um outro aspecto que é capaz de facilitar a interacção, é de não abrirem já o google e pesquisarem “eventos de network”. Um evento de network não tem de ter etiquetas: já me aconteceu estar no aeroporto e o meu voo estar atrasado e, conversa puxa conversa com a pessoa à minha frente na fila, descobri que trabalhava para uma das maiores empresas de distribuição alimentar do país. Trocámos “cartões” e na semana seguinte pôs-me em contacto com o responsável de recursos humanos da empresa dele. Foi simples e fácil porque não tinha aquele mantra de “tens de conhecer pessoas e trocar cartões o mais depressa possível em meia hora”, em loop na cabeça e porque foi natural. 

Caso se inscrevam mesmo em eventos de networking, não têm necessariamente de se inscrever em algo que esteja directamente ligado à vossa área de acção. Uma amiga minha é designer e foi a uma conferência de design em Madrid. Se o objectivo dela fosse angariar novos clientes, este provavelmente não teria sido o melhor evento para o fazer. Mas como o objectivo dela era encontrar pessoas que trabalhassem num gabinete  específico e que pudessem abrir umas portas (ou umas janelas) para ela conseguir uma entrevista, então o evento valeu a pena.

A pior coisa que podem fazer é ir para um evento só por ir. Acreditem, há melhores coisas para fazer na vida. Por isso pensem na razão que vos leva a ir a estes eventos e o que esperam obter. Querem falar com cinco pessoas para terem menos medo de falar nas entrevistas? Força. Querem conhecer pessoas que trabalhem em agências de publicidade? Falem até as encontrarem. Agora não percam o vosso tempo a discutir meteorologia em profundidade, não sejam demasiado agressivas na vossa abordagem, mas não tenham medo de dizer olá e talvez dar um aperto de mão e de se apresentarem. 

No fim da conversa, não deixem as coisas em aberto. “Até breve” não é muito específico. Se quiserem mesmo continuar a conversa numa outra oportunidade, refiram isso. “Eu envio-lhe um email/telefono-lhe esta semana/amanhã/etc.”, ajuda a que a pessoa não se esqueça de vocês, mostra iniciativa e ajuda-vos a dar seguimento aos vossos objectivos.

Agora quanto à parte de fazer com que estes relacionamentos de trabalho valham a pena, aviso já que não acontece do dia para a noite. Comparando com outras relação importantes da vossa vida como os vossos amigos, tirando os que conheceram quando tinham dois anos, não ficaram “besties forever” do dia para a noite… Porque é que haveria de ser diferente com estranho?

Se o estiverem a fazer via LinkedIn, mandar um convite ao calhas para uma pessoa qualquer é capaz de não vos levar a lado nenhum. Correm o risco de serem ignorados ou, se forem aceites “no-questions-asked”, correm o risco de ter escolhido uma pessoa que aceita qualquer um. 

Como todas as relações, as outras regras são válidas: não mentir, não inventar histórias ou melhorar a realidade… já sabem isto de cor… É óbvio, mas não custa lembrar.

Outra coisa importante é o facto de muitas vezes investirmos em contactos com pessoas externas ao nosso local de trabalho. Não basta ser cordial, temos de dar confiança para receber confiança. Claro que não a vamos dar indiscriminadamente a todos os colegas. Além de tornar as horas de trabalho mais agradáveis, nunca se sabe quando uma mão amiga é necessária!

Não se esqueçam, estas relações devem ser apoiadas no princípio da reciprocidade. Este é um daqueles momentos em que auto-análise é necessária. Tentem ter algum sangue frio e pensar se vocês são por natureza pessoas que ajudam os vossos amigos ou se são como a minha amiga do primeiro parágrafo, que me fez um choradinho para eu ir com ela, porque não queria ir sozinha, snif, para depois me abandonar assim que a pessoa que ela estava à procura ficou disponível para falar.

E para acabar o meu discursos sobre networking, e para responder à última pergunta, sim… o networking, se for bem feito vale a pena. Nunca sabem quando alguém que ficou impressionado com o vosso discurso e postura vos oferece uma posição noutra empresa, ou que ajude o vosso negócio a sair da obscuridade, ou que vos dá um conselho que muda a vossa vida. Todos nós evoluímos (a vários níveis) ao interagir com terceiros, por isso deixem o “interesse” de lado e usem o networking como uma estratégia de autoconhecimento  e desenvolvimento das vossas capacidades interpessoais e para aprenderem através da troca de ideias. 


 

Filipa Telles é consultora num gabinete de executive search em Lisboa e odeia que lhe digam para sorrir mais. Se tiverem dúvidas sobre este ou outros temas ligados a recursos humanos, cliquem aqui para falar com a Filipa.

 

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