Guerra e Paz: Um bilhete de ida à Rússia do século XIX

 
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Napoleão decidiu invadir a Rússia. Alexandre decidiu combater Napoleão. Milhares de seres morreram devido aos caprichos de dois homens. Inteiras cidades foram destruídas. Mas a busca pelo amor nunca cessou, homens e mulheres nunca deixaram de sonhar e a vida seguiu como sempre segue. A História dá-nos factos, e Tolstoi oferece-nos a História. Este é um bilhete de ida à Rússia do século XIX.  

Porto. Aeroporto Francisco Sá Carneiro. Outubro de 2016. Sinceras desculpas apresento por dizer aqui que não há nada de poético em viajar com uma mochila às costas e que cada peso carregado tem de ser pensado e justificado. Por esse motivo, abri o porta-bagagens do carro do meu pai em frente à entrada do aeroporto e comecei a aliviar um pouco a dor futura nas minhas costas. Comigo tinha mais de quatro quilos em livros. Siddharta de Hermann Hesse definitivamente levaria, mas assim que olhei para os dois volumes de Guerra e Paz soube que não teria tempo para ler a obra completa por isso empacotei tudo outra vez apenas com um dos volumes. E segui viagem. No entanto, sozinha pela primeira vez numa cidade estrangeira, decidi que Sofia, na Bulgária, seria o sítio perfeito para começar a ler a obra de Lev Tolstoi. Mas qual não é a minha surpresa quando me apercebo de que comigo tinha o segundo volume. A par desta perceção, ocorreu-me outra – a inutilidade de carregar comigo um livro com uma média de 700 páginas.

Apaixonada que sou por livros obviamente mantive o peso comigo e, como a lembrar-me de quão ridícula tinha sido, em cada aeroporto que passava os seguranças pediam-me para abrir a minha mochila por curiosidade em saber que massa era aquela que eu carregava. E riam-se quando eu lhes mostrava um livro. No entanto, o livro viajou comigo até à Ásia, viveu comigo as minhas experiências no Nepal, acampou na mesma tenda que eu até ao dia em que uma amiga portuguesa acedeu ao meu pedido de o levar de volta a Portugal. Numa tarde fria de janeiro, na caótica cidade de Catmandu, a Diana entrou no táxi que a levaria ao aeroporto e eu fiquei a acenar-lhe, sabendo que com ela tinha uma pequena parte de mim. Três meses depois, na paragem de metro de Alameda em Lisboa reencontrei a Diana e esse amigo que tantos momentos partilhámos. As despedidas e os reencontros são conceitos opostos que só fazem sentido se ambos coexistirem. Assim, em Londres reencontrei o meu pai e em Londres também voltei a ter na minha mão o segundo volume - finalmente para o ler.

Com o livro sobre as minhas pernas e uma caneca de chá pousada sobre a mesinha de cabeceira, apercebo-me de que não leio, mas que imagino o processo da sua criação. Viajo até à Rússia do início do século XIX e visualizo um homem de barbas longas, sentado diante de uma escrivaninha de madeira escura, a escrever pausadamente devido às suas ferramentas de trabalho. Esta imagem criada pela minha imaginação assalta-me a mente com frequência e tem em si uma cotação de pacificidade inexplicável. É como se se insurgisse na minha mente para me lembrar que o tempo é precioso e que Lev era o portador dessa sabedoria. As descrições minuciosas, a complexidade da narrativa do campo de batalha e as suas reflexões aprofundadas sobre temas referentes à ética impõem ao leitor a necessidade de reflexão e amadurecimento de conceitos e ideias. O leitor a par com o escritor também levanta a pena e olha pela janela e também veste a mesma expressão contemplativa. É esta cadência pausada da sua escrita que cria o elo entre o leitor e a história e, ainda, a razão pela qual este é um bilhete de ida sem retorno. As personagens viverão intactas muito depois de se virar a última página e de se ler a última palavra.

Uma das personagens a quem eu criei mais afeição a um dado momento afirma saber que o amor é um sentimento egoísta porque, como explica, ama-se outra pessoa pela maneira como nos sentimos quando estamos com ela. A poucos dias do seu encontro com a morte, a mesma personagem afirma que, afinal, o amor é algo mais supremo – "a piedade, o amor pelos nossos irmãos, pelos que nos amam, o amor pelos que nos odeiam" e, quando viu o seu inimigo a morrer ao seu lado, as lágrimas inundaram-lhe os olhos "e uma piedade e um amor exaltados por aquele infeliz encheram o seu coração". Esse é o verdadeiro amor, superior e incompreensível aos seres humanos. E no dia que essa personagem morreu, fechei o livro e fui dormir. Tinha em mim uma sensação de vazio.

Saboreei cada página com a mesma intensidade que aprecio uma conversa com um amigo de longa data por noite dentro, até os nossos olhos se fecharem e a luz do dia ser visível. Amor, felicidade e valores como a família e a lealdade foram temas discutidos entre mim e esse meu amigo através da escrita de Lev. Nessas páginas, escritas há 150 anos, eu encontrei explicações a questões que me assaltaram a alma muitas vezes quando viajava pelo continente asiático, mas por força das circunstâncias coube a mim primeiro debatê-las sozinha. É como se me sentisse mais preparada para debater questões sobre a humanidade com André, mais predisposta à felicidade genuína de Natacha, e um pouco mais madura para assistir aos horrores das invasões napoleónicas sem criar em mim um sentimento de tristeza fulminante. Aprendi que a par com o bem há o mal e que com a vida a morte e é na nossa individualidade que reside a capacidade de encontrar a felicidade, mesmo sabendo que acima de nós existe uma força esmagadora invisível e que nada somos na História.

Nota: Nada do que eu pudesse ter escrito ao invés destas palavras fariam justiça à magnificência de uma obra como Guerra e Paz. Este emaranhado de palavras reflete a liberdade que tenho para escrever o que a minha vontade ditar, e neste momento escrevi repleta de imaturidade, porque não escrevo por ser livre apesar de o pensar, mas por sentir-me na obrigação de me justificar.