A feminista de saltos altos e pantufas

 

Culpada. O juiz deste tribunal considera a réu Rita Lima como culpada por forjar ser uma mulher independente e feminista e ao saber-se ter-se rendido a uma exaltação proferida por uma pessoa do sexo oposto. 

 

"Rita, tu precisas de um homem que tome conta de ti". Assim que o meu cérebro recebeu a informação exata do que tinha acabado de ser dito, eu abandonei o meu mundo onde normalmente passo os meus momentos de solidão, desci à terra de escorrega para ser mais rápido e aterrei de pé, com os cabelos no ar e uma cara a refletir surpresa: "Desculpa, podes repetir?", Perguntei eu ao meu colega de trabalho, ainda na esperança de ter sido uma partida do meu subconsciente. "Penso que precisas de alguém que olhe por ti". E lá estava ela outra vez, aquela frase ali a pairar no ar no espaço que nos dividia, a deitar-me a língua de fora, e eu a questionar-me se devia arquivá-la na gaveta dos elogios ou dos insultos. Como a luta entre o coração e o raciocínio continuava a não dar mostras de estar terminada em poucos segundos, eu enchi o meu peito de ar, levantei a cabeça, contraí os músculos, assumi uma expressão de não-quero-saber-o-que-pensas-ou-deixas-de-pensar e disse, rispidamente: "Eu não preciso de homem nenhum para tomar conta de mim. Sei fazê-lo bem sozinha". Quase que o vi a saltar para um buraco como a Alice fez para seguir o coelho. Queda livre.

Mas a verdade é que aquela frase ficou a pairar no ar por muito tempo. A minha discordância tinha sido verdadeira e sentida e eu acreditava no que tinha dito, mas então o porquê de sentir que as palavras continuavam a fazer troça de mim? Conseguia ouvir as suas gargalhadas. E foi quando eu dei uma oportunidade ao coração - estava quase morto pelo raciocínio, à espera do golpe final, mas assim que eu o encorajei, saltou energicamente e empunhou a espada mais uma vez -, que percebi que eu tinha gostado do que tinha ouvido. E de repente, como uma aragem fria que nos passa pelo corpo, eu senti vergonha. Senti que não me era permitido afirmar que tinha gostado do que tinha ouvido e muito menos, claramente, confirmar o seu significado. Senti vergonha porque como mulher independente que sou sentia-me a derreter como um gelado ao sol no centro de Roma. Apenas para dar ênfase ao que acabei de afirmar, é preciso imaginar um cone com três bolas de gelado a pingar nas mãos e a obrigar-nos a esquecer as boas maneiras de como comer em público. Mas foi quando descobri os podcasts "The Guilty Feminist" que eu respirei de alívio por saber e confirmar que não estou sozinha nesta luta pela mulher que veste saia e camisa, usa sapatos de saltos altos e caminha como se o mundo estivesse aos seus pés, mas que em casa enfia umas pantufas e veste o pijama e chora desalmadamente ao ver um filme enquanto enfarda chocolates.

"Eu sou feminista, mas uma vez conheci um rapaz que era vegetariano e tão bonito que me tornei vegetariana (…) Eu sou feminista, mas uma vez conheci um talhante tão giro que deixei de ser vegetariana (…) Eu sou feminista e mesmo que pense que as mulheres devem dormir com quantas pessoas queiram e serem livres de expressar a sua sexualidade, eu não penso que a minha irmã mais nova deva fazer o mesmo." É desta forma que a comediante Deborah Frances-White começa o seu espetáculo, acompanhada por Sofie Hagen. E é desta forma também que nos guiam para conversas sobre medos, inseguranças e hipocrisias que tantas vezes nos assaltam.

Um dos podcasts sobre comida colocou uma questão que me deixou a pensar: porque é que uma mulher sente vergonha quando pede um bolo numa pastelaria? Nunca tinha percebido que ao pedir-se um bolo se age como se fosse um dos crimes mais abomináveis da terra e que, pelo contrário, os homens o fazem certos de que merecem não apenas um bolo, mas dois ou três. Claramente que ao falar-se de grupos onde se inserem milhões de pessoas se cai na generalização, mas esta dupla consegue captar as questões pelas quais nos identificamos quando as ouvimos. E num total de 60 episódios - gratuitos no website -, de certeza que se encontra aquelas ideias embaraçosas que tivemos e pensámos: é melhor guardar para mim, porque sinto que só de pensar já é mau o suficiente. Mas entre piadas vamos percebendo que não é mau, que não é errado e que como nós existem muitas pessoas exatamente com as mesmas dúvidas e questões. E, em finalização, percebemos que a mulher perfeita não existe.

A mulher bem-sucedida profissionalmente, economicamente independente, com ambições de crescer na carreira, que vai ao ginásio seis vezes por semana e que come saudável, que sabe cozinhar e o faz na realidade e que tem tempo de cuidar da casa e que o faz com gosto e brio, e ainda cuida da família, ama o namorado/marido, interessa-se por política, economia e pela sociedade em que se insere e, talvez, ainda consegue discutir desporto. É uma idealização. Somos independentes e gostamos de o afirmar em voz alta, somos capazes de qualquer coisa e de tudo, mas no nosso íntimo também temos incertezas e inseguranças e no dia-a-dia temos dias que tudo parece perfeito e outros que é melhor nem sequer falarem connosco porque vamos atirar a primeira coisa que encontrarmos à frente. Eu admito que sou assim. Mas é quase um crime mortal admitirmos perante a sociedade de que precisamos de alguém - independentemente de ser homem ou mulher.

A maneira como a frase me foi proferida, eu admito, mexeu comigo e conseguiu abalar toda a barreira que eu tenho ao meu redor e que tão cuidadosamente fortaleço dia após dia. Ele não o disse querendo significar que eu não sou independente o suficiente para seguir com a minha vida sozinha, mas sim, porque pensa que eu mereço ter alguém que olhe por mim. E que me ame. Um verdadeiro companheiro. A par com o feminismo, a liberdade e a independência, eu tenho um lado muito romântico que me despe na totalidade e, claro, assim me rendi. Assim o confesso.