A fragrância das memórias

 

As pessoas que me conhecem e que já visitaram a minha casa de banho sabem que o conteúdo dos armários dessa divisão rivalizaria com qualquer Sephora do país. Não é por acaso que tenho tudo arrumado em pequenas gavetas de acrílico, como se fosse a versão armazém/oficina de uma perfumaria. E como esta colecção tem tendência apenas a crescer, apesar das múltiplas purgas e “giveaways” que faço a amigas que precisem de algo (muitas vezes produtos intocados), as viagens que faço são sempre oportunidades de acrescentar mais itens ao meu sortido.

Esta semana estava a passear por Lucerne, na Suiça, quando me deparei com algo que ainda não tinha visto: Perfumes Maison Margiela. Para quem lê revistas de moda (guilty as charged!) tem já conhecimento das colecções de alta-costura e pronto-a-vestir da maison, mas o que porém lhe poderá ter escapado são estas pequenas gemas preciosas em estado líquido.

Chamam-se “Replica” e, quando as vi pela primeira vez empilhadas numa prateleira pensei que se tratariam de versões caras dos perfumes da Equivalenza, mas um olhar mais atento revela que além de não serem cópias de outras fragrâncias, estes frascos de aspecto anti-séptico e altamente laboratorial são experiências, ou melhor, vinhetas de vida encapsuladas em perfumes. Nas palavras da marca, são fragrâncias que “capturam momentos, períodos [da história] ou locais essenciais [a estimular] memórias”.

O primeiro que experimentei foi “Jazz Club” que é exactamente o que vem à cabeça: salas de espectáculos antigas, com cadeirões em pele. É extravagante, quente e sensual com notas normalmente usadas em perfumes masculinos, como lembrou imediatamente a vendedora. No entanto, para mim é sinónimo de perfume de eleição, já que grande parte dos meus perfumes tem uma base de baunilha e tonka, e são normalmente considerados um misto entre intoxicantes e hipnóticos (YSL Black Opium, Gucci Envy, Burberry Body, etc...). Uma escolha óbvia para mim.

Mas o que me convenceu mesmo – e porque tendo acabado de trocar de empresa, este ano não há direito a férias, apenas escapadinhas de fim-de-semana, foi o “Beach Walk”. Este apenas posso descrever como sendo para amantes de verão, da areia, do cheiro do Piz Buin e de tudo o que tenha coco. O mais semelhante que alguma vez encontrei ao cheiro de uma ida à praia num dia de calor foi o Bronze Goddess da Estée Lauder, e mesmo assim tem demasiadas características de perfume para invocar mesmo essas memórias.

No momento em que escrevi o artigo não consegui apurar em que lojas podemos adquirir estes perfumes em Portugal, mas o site da Maison Margiela faz entregas no país. O preço das embalagens de 100 ml é um pouco elevado para a média dos perfumes comerciais que estamos habituadas a comprar (com os 20% de desconto do costume, da Perfumes e Companhia), mas duram um dia inteiro e andam com a praia atrás, como eu, seja qual for a divisão do escritório em que estiverem.