História sobre histórias: O segredo dos livros

 

Por vezes tomo café na Baixa Lisboeta com Ricardo Reis e outras vezes dou por mim sozinha na descoberta de que o mundo sofreu uma catástrofe. Sei que o meu enjoo deve-se à navegação da Península Ibérica e que estou revoltada pela maneira como o processo é desenvolvido. Dou por mim a viajar no tempo e visito o Ramalhete onde atento em cada pormenor, ou viajo até à Rússia para discutir temas como o amor. Cada livro conta uma história, e a minha é contada pelos livros.

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É humanamente impossível descrever a paixão que sinto pela leitura e, principalmente, aquela que sinto pelos livros, duas paixões que eu considero distintas. Para ser totalmente sincera, teria de nominar de vícios, mas deixemos o ambiente romantizado como está. A leitura proporciona-me a imersão em estórias, o conhecimento da História e a reflexão de temas sobre o ser humano e a humanidade. Os livros proporcionam-me momentos. As horas passadas em livrarias, a felicidade que sinto de cada vez que descubro uma nova loja de livros em segunda mão onde, clandestinamente, procuro aqueles que contenham notas e dedicatórias. Porque acredito que cada livro conta histórias, mas não apenas aquelas narradas pelo seu autor.  

O livro O Safari Vermelho de Javier Moro chegou-me às mãos numa tarde fria e chuvosa de inverno, daquelas que definitivamente nos convidam a ler em frente da lareira que, incrivelmente, já se encontrava acesa. Mas naquele momento eu já tinha acabado o livro que andava a ler e, por esse motivo, comecei a procurar entre armários, estantes e prateleiras dos meus pais algum que me interessasse. E foi assim, em pijama, robe e pantufas, que conheci uma grande mulher – Sonia Gandhi. Ainda tentei arranjar o cabelo, mas as apresentações já tinham sido feitas.

Em paralelo com o amor incondicional de Sonia por Rajiv Gandhi e ao seu ingresso na vida política da Índia, página a página ia descobrindo marcas de uma outra mulher que, também num tempo passado, tinha segurado o mesmo livro que eu naquele momento tinha em mãos. Páginas dobradas nas extremidades superiores que indicavam uma passagem interessante, bilhetes de comboio perdidos pelo livro, um número de telemóvel e, aquilo que eu sempre encontrei em livros emprestados à minha mãe, folhas de papel higiénico. A todas estas marcas, a este livro de capa vermelha acrescentei-lhe as minhas onde nele também eu cunhei uma pequena passagem da minha vida. Se calhar um dia alguém o encontrará e verá que nele existe vida e vivência; ou se calhar questionar-se-á que função terá aquele monte de páginas amontoadas. Não quero acreditar na proeminente extinção destes objetos obsoletos e, por esse motivo utópico, continuo a ser uma defensora e adepta do livro na sua forma tradicional. 

“Compra livros digitais e pouparás espaço e dinheiro”, é esta a frase que eu normalmente ouço e a minha reação é sempre teatralizada. Faço de conta que não sabia de tal existência, como se me tivessem a contar um artefacto vindo do futuro, e começo a idealizar o meu sofá ao lado da janela, uma caneca com chá pousada na mesinha de apoio, uma manta a cobrir-me as pernas e um livro nas minhas mãos. E quando dou por mim, em menos de oitenta dias dou a volta ao mundo.