Cantinho das Aromáticas

 
 
 

Na semana passada, tive a oportunidade de ir visitar o "Jardim Produtivo" da empresa agrícola portuguesa Cantinho das Aromáticas. A bonita quinta em Vila Nova de Gaia, no Norte de Portugal, onde vim a descobrir que D. Pedro I e Dona Inês de Castro chegaram a habitar no século XIV), foi o local onde conheci Luís Alves, um dos 19 agricultores que mais marcaram as últimas décadas (segundo Isabel Martins, no livro Agricultores que Marcam*) e a sua mulher, Maria, que gentilmente me deram a conhecer o maravilhoso mundo que criaram naqueles campos.

O sonho do Luís, o "Senhor das Aromáticas*", materializou-se há 15 anos atrás, nascendo sob a forma de um viveiro cujo objetivo seria o de nos incentivar a dar vida àquele cantinho verde que tantos de nós desejamos, eventualmente, poder gabar-nos em alguma fase da nossa vida. Este primeiro objetivo de criar zumzum à volta do tema das Aromáticas e de levar as pessoas a cultivá-las (e a gostar de o fazer) foi rapidamente conseguido e conseguido com muita qualidade! Os prémios, nacionais e internacionais, começaram a surgir e a empresa começou a crescer muito para além daquilo que tinha sido pensado inicialmente, ao ponto de chegar a abrir uma loja e a criar uma marca própria.

Passados quinze anos de maturação, o Cantinho das Aromáticas apresenta-nos a sua paixão - as infusões, tisanas, condimentos e especiarias -, procurando o seu lugar no mercado português sem nunca se desenraizar da agricultura biológica e da forte vertente pedagógica, que destaca esta empresa de muitas outras que nos chegam aos ouvidos diariamente. Contrariando a sabedoria popular, o Luís diz-nos que "aqui, o segredo não parece ser a alma do negócio" mas sim, a cultura do saber, o ensinar como fazer e a honestidade inerente a todo o processo! Neste "Big Brother do mundo rural", expressão que emprega jocosamente ao falar da transparência de que tanto se orgulha, podemos realmente inteirar-nos da verdadeira e completa história da planta. De facto, as mãos que aqui trabalham acompanham cuidadosamente todo o caminho que se inicia na ínfima semente e que se prolonga até ao produto final, fazendo ainda gosto em convidar-nos a assistir e participar no espetáculo, em qualquer dia e em qualquer momento! 

Outra característica que destaca o Cantinho das Aromáticas é o envolvimento permanente com programas de investigação, recebendo os mais variados trabalhos de Mestrado e inúmeros projetos com Universidades, o que cria uma extensíssima rede de aprendizagem entre todas as pessoas envolvidas para gerar informação ou pegar na existente, otimizá-la e passá-la ao público! Infusão Premium, um dos maiores e mais inovadores projetos, é um dos exemplos, tendo o objetivo de "apurar ao limite o prazer do ato de degustação [de infusões], através da criação de lotes de excelência.". Este desejo de elevar a preparação e o seu consumo a um estado de arte, tal como já aconteceu com o café e o vinho, é, então, o próximo passo a alcançar! Para além das propriedades terapêuticas que são sempre a sua característica marcante, existe também toda uma rica experiência sensorial associada que não deve ser negligenciada (principalmente se aproveitarmos isso como forma de substituir o consumo de bebidas açucaradas como refrigerantes!). O Luís sonha em passar do "beber um cházinho em saqueta para tratar a constipação" - sendo que até mesmo a palavra chá é muitas vezes mal empregue como sendo sinónimo de infusão -, para um mundo em que se saiba apreciar as mais requintadas misturas e onde se retira o máximo prazer destas bebidas.

 
 

Não foi preciso muito para que ficasse a perceber o porquê de o terem apelidado "Senhor das Aromáticas*". É magnífico conhecer alguém que é verdadeiramente apaixonado por aquilo que faz e que coloca um pouco de si em tudo o que produz! De facto, a satisfação, o otimismo e a alegria com que fala no seu trabalho é tal que me levou a perguntar se todo este modo de vida extremamente próximo do natural não seria, de certa forma, terapêutico. Assumidamente um homem de extremos, a ligação à Terra parece ser a corda que puxa o Luís de volta às bases. E na sociedade que reconhece como sendo altamente formatada e atribulada, este modo de viver a vida mudou, educou e guiou o Luís: "A Natureza acabará sempre por manter o seu equilíbrio", e quem viver em comunhão com ela, acabará por poder partilhar deste equilíbrio e tranquilidade! 

Já bastante entusiasmada com este tema, a que o meu anfitrião daquela tarde também gosta de chamar "joalharia de agricultura", dado que ainda se considera muito artesanal naquilo que faz, decidi fazer algumas perguntar mais práticas. Quando confrontado com a pergunta de quais os conselhos para começar um pequeno jardim em casa, a resposta já é imediata - "o ingrediente fundamental na fórmula é ter tempo"! O Luís sugere-nos que olhemos para a nossa plantação como um animal de estimação, que precisa diariamente de cuidado e atenção, e lembra-nos que devemos reaprender a tratar das plantas, recuperando a atividade que, desde os tempos mais remotos, faz parte do património genético do Homem. Ousar falhar é também outra condição deste processo de aprendizagem e evolução, assim como o "tentar vezes sem conta" - afinal, não se perde nada em tentar, não é? 

E no que toca ao decidir o que plantar, quis seguir um caminho um pouco diferente e perguntei se conseguiria atribuir algum tipo de personalidade a cada uma das plantas (não fosse acabar por me comprometer com alguma mal-humorada ou violenta!). Fui alegremente surpreendida por uma bonita e cativante descrição das características humanas de algumas ervas aromáticas, assunto que, pelo vistos, já tinha sido desenvolvido num livro do Luís em coautoria com outros 3 autores -  Erva uma vez… estórias cozinhadas com aromas - integralmente produzido e editado pelos mesmos. Alecrim, o Estimulante; Alfazema, a de todos e de todas; o Limonete, o Favorito (já que é este o preferido do Luís); Salsa, a Confiável; Manjerona, a Gata Borralheira,... Cada planta tem o seu lugar no livro e chega ao baile dos habitantes deste jardim com duas ou três receitas em que é protagonista, sendo sempre devidamente apresentada à entrada pelo agricultor, que nos mostra também como as fazer chegar à cozinha, o próprio Luís. É uma produção mágica, acompanhada pelas magníficas fotografias do fotojornalista Nelson Garrido e com o design de Pedro Botelho, que me deu vontade imediata de pôr as mãos ao trabalho, na terra e na cozinha!

Mas para tentar não me meter por caminhos demasiado complicados, quis sondar qual seria a erva mais fácil de cultivar. A conclusão foi simples - "quem não conseguir manter hortelã, seja ela qual for, mais vale dedicar-se ao corte e costura". Pouco mais é preciso do que um pezinho de hortelã e um copo de água para que se comecem a formar raízes!

A minha visita estava quase terminada mas era imprescindível dar um passeio pelo já muito falado Jardim Produtivo, com paragem obrigatória no colorido campo de perpétuas! A vista é deslumbrante e percebo agora toda aquela sensação de tranquilidade e paz de que ouvi falar há momentos atrás! Tenho a certeza que não será a última vez que respirarei aquele ar e aconselho vivamente todos os que possam vir a fazê-lo também! Venham plantar a vossa própria planta, juntem-se a um dos muitos workshops, experimentem o programa de voluntariado ou venham simplesmente para conhecer este projeto português e o magnífico casal que lhe dá vida todos os dias! Venham pelas paisagens, pelas plantas e pelo prazer das aromáticas, que o Luís vive para dele fazer uma arte (ou, pelo menos, "para morrer a tentar"!).


Mais informações:

Agricultores que marcam (*)

http://www.cantinhodasaromaticas.pt/produto/agricultores-que-marcam/

 

 
 

Autores:

  • Luís Alves – Ervas aromáticas
  • Patrícia Vilela – Receitas
  • Nelson Garrido – Fotografia
  • Pedro Botelho – Design

Voluntariado: http://www.cantinhodasaromaticas.pt/voluntariado/

Workshops: http://www.cantinhodasaromaticas.pt/calendario-eventos-workshops/

Visitar a quinta: http://www.cantinhodasaromaticas.pt/o-cantinho-aromaticas/