À conversa com: Filipa Pinto Coelho

 
 
 

Pouco passava das onze e meia da manhã quando comecei a conversar com Filipa Pinto Coelho, no bar de um hotel no centro da capital. De uma simpatia e positividade imensas, que passa para tudo o que diz e faz, desde que iniciou o seu percurso profissional Filipa aprendeu e ensinou muito por todas as empresas pelas quais passou e nas quais desempenhou diversas funções. Mas se o seu percurso profissional é gratificante, a sua vida pessoal não lhe fica a dever em nada: construiu uma família extensa, mais unida e mais rica a cada dia que passa, desde a chegada, há um ano atrás, do seu filho Manel, e está atualmente envolvida na Associação VilacomVida. Há entrevistas que rapidamente se transformam em conversas, em confidências, e esta é um bom exemplo disso. 

 

A Filipa licenciou-se em comunicação social, e começou o seu percurso profissional como estagiária na Portugalia Airlines. O que recorda destes tempos? Como foi o primeiro impacto com o mundo do trabalho?

Eu terminei o curso de Comunicação Social e Cultural da Universidade Católica Portuguesa em 1998. O curso estava muito focado para a área do jornalismo, tive oportunidade de fazer alguns estágios nessa área, mas depois percebi que eu gostava era de enveredar pela área empresarial e foi assim que surgiu a hipótese de fazer um estágio no departamento de recursos humanos para trabalhar a área da comunicação interna na Portugalia, PGA Portugalia Airlines na altura. Lembro-me que foi uma experiência muito gratificante, porque no fundo a área da comunicação interna acaba por nos fazer ter contacto com todas as áreas. Era uma companhia área, foi o salto para aquele sonho de todas nós de “um dia vou ser hospedeira”, para de repente perceber o que é uma companhia aérea, como é que ela funciona, fazer mesmo recrutamento para a parte das assistentes de bordo, desmistificar um bocadinho esse mundo, e foi aí que eu percebi que de facto estava na área certa porque eu gostava de comunicação, mas gostava da vertente empresarial da comunicação. Foi um estágio curricular e no fim do estágio fui convidada a ficar. Portanto foi uma experiência muito, muito gratificante, recordo com muito carinho, tenho pessoas que hoje em dia ainda são minhas queridas amigas dessa altura... Foi uma experiência muito muito positiva! 

 

Depois da Portugalia Airlines, foi passando por várias empresas, sempre na vertente da comunicação e do marketing. Embora atualmente estas duas áreas pareçam andar de mãos dadas, como funciona realmente esta associação? Como é que alguém que tira comunicação e que começa por trabalhar nessa área, acaba por passar para uma vertente mais de marketing?

No meu caso, eu segui sempre a parte da comunicação interna na Portugalia - estive na área dos recursos humanos e depois estive no departamento mesmo de comunicação empresarial, onde se fazia a revista de bordo, que era um elemento importantíssimo de comunicação da companhia. Pelas outras empresas que passei a seguir, a Logoplaste veio a seguir e estive a trabalhar a comunicação interna, e na empresa seguinte, que foi a Multitema, aí é que fiz esse salto para assistente de marketing. Fui viver para o Porto, na altura em que passei da Logoplaste para o grupo Multitema, e aqui, como lhe dizia, foi o primeiro contacto com o marketing porque de facto ali a nossa ideia seria comunicar a potenciais parceiros/clientes um serviço completo de comunicação que existia na área gráfica. Começavam-se a dar os primeiros passos na área digital a sério, também na parte de comunicação interna, há uma série de conhecimentos nesse grupo a nível de impressão offset, digital, a pré-impressão, todo esse processo gráfico, que consegui ter ali e foi uma experiência muito, muito interessante que durou cerca de dois anos porque a empresa na altura deu uns passos enormes, começou-se a sentir a crise, fez um investimento enorme em tecnologia e a área de marketing teve que ser praticamente extinta. Fiquei com imensa pena, tinha acabado de ter a minha primeira filha, estava ansiosa por recomeçar a trabalhar – nós nunca damos valor àquilo que temos na altura, nunca... Portanto foi basicamente pôr à estrada outra vez, fiz uma pós-graduação em marketing nessa altura porque sentia que de facto era um complemento de formação e de informação que me faltava para o curso de comunicação, no IPAM, em Matosinhos. Entretanto recomecei a trabalhar na CIN, nas tintas CIN. Outra experiência fantástica, aí mais direcionada novamente para a comunicação e não tanto para o marketing, na qual fiz um trabalho muito também de jornalismo dentro da empresa, porque a CIN era líder de mercado incontestável mas por uma postura muito low profile em termos de cultura, não comunicava aquilo que tinha que comunicar. Se tinha sido a CIN a pintar a Ponte do Infante, porque é que não íamos dizer que a CIN tinha pintado a Ponte do Infante? O negócio era muito também na parte industrial e esse lado não se comunicava tanto, talvez não fosse tão sexy de comunicar e a minha função ali foi um bocadinho puxar pelos galardões da empresa e foi fantástico. Também na CIN deixei grandes amigos, continuo com grandes amigos, o Porto é uma cidade muito propicia a ter amigos para a vida, foi lá que eu comecei a criar os primeiros laços mais fortes a nível profissional e a nível pessoal também! 

 

Em 2005 trabalhou como Corporate Advertising (responsável pelas campanhas publicitárias) no Banco Espírito Santo. Optou propositadamente por trabalhar mais ligada ao marketing ou foi uma oportunidade que surgiu?

Saí das tintas CIN para Lisboa porque pessoalmente decidimos vir viver para cá, e quando vim estava em dois processos de recrutamento diferentes – um era para o grupo Finseda, que é a Novembal (produz as embalagens para os Mc’Donalds, KFC’s, Danone, etc), e havia outra hipótese de preencher uma vaga, mas temporária de substituição de parto, no BES. Eu optei pela primeira, e acho que optei bem, porque na altura era uma proposta efetiva de trabalho, não temporária, e porque foi mais uma experiência muito gratificante porque foi muito completa. Eu era gestora de cliente na Novembal, e a nossa função era fazer com que a ideia de uma embalagem percorresse na empresa todo o percurso até sair para os camiões TIR que a iam entregar ao cliente final. Era um trabalho muito autónomo, fantástico, que me deu uma atenção, um conhecimento do detalhe e da sua importância, do minucioso, que depois se extrapola para outras coisas; tudo isto foi uma sorte que apareceu em termos profissionais sem aparentemente ter a ver diretamente com comunicação e que acabou por ser útil. Daí, passados cerca de mais ou menos um ano, o Banco Espírito Santo voltou-me a contactar para insistir que gostavam de alguém com o meu perfil na área de comunicação com os acionistas, que era uma área importantíssima porque havia muitos instrumentos de comunicação de alguma forma interna, que queriam desenvolver e eu acabei por entrar no grupo Espírito Santo nessa área. Daí, fui para uma área de comunicação institucional, dentro do BES, que passava pela publicidade institucional – estávamos na altura das campanhas do sócio da seleção, o BES como patrocinador da seleção tinha muita comunicação a fazer, e outras campanhas a nível da sustentabilidade, a nível da parte de mecenato cultural que era feito, enfim, uma série de projetos brutais que o banco tinha na parte da comunicação e que tive a sorte de poder acompanhar como gestora dessa parte de publicidade na área institucional. Ainda tive a oportunidade de estar noutra área, que foi do marketing propriamente dito, onde a comunicação era para o grande consumidor também, mas agora na vertente de produto. Acabei por não estar muito tempo nessa área porque depois percebi que não havia muito mais para aprender e foi aí que entrei também durante um tempo na área do banco privé, portanto na área private, foi talvez aí o primeiro contacto que tive com um posicionamento mais elevado, que depois me abriu portas para, num mundo completamente diferente porque era o mundo da moda, entrar na Fashion Clinic.

 

Portanto, a transição para a Fashion Clinic fez-se a partir daí....

Eu penso que sim... Quando comecei o processo de seleção para a Fashion Clinic, não era algo que eu esperasse que fosse concluir com sucesso, porque à partida a moda é um mundo novo.  Na verdade, o que a Fashion Clinic na altura pretendia era alguém com experiência de marketing de grande consumo.  Penso que a experiência na área private foi importante porque obviamente estamos a falar de um público muito elevado, classe AAA+, penso que foi por aí que as coisas avançaram. Fui chamada para criar uma área de raíz, que era a parte da comunicação com tudo o que era inerente a isso, a estreia nas redes sociais, a criação de um site dinâmico, a produção mais regular de moda in house, a comunicação com o cliente, as newsletters que se faziam com mais regularidade para que houvesse mais venda, depois obviamente a montagem do primeiro projeto de compra online, que também tive o privilégio de gerir. Foram quatro anos muito completos, ao mesmo tempo que também acompanhava a Gucci, que na altura também coincidiu a abertura do franchising e tive o privilégio de poder acompanhar também a marca a nível de comunicação. Foi ali um conjunto muito ambicioso em termos profissionais, ao mesmo tempo que, obviamente,  nós como mulheres,  trabalhar com moda e ver coisas lindas todos os dias e ter oportunidade de comunicar só coisas que toda a gente acha bonitas, ou a maioria das pessoas que gostam desta área acham bonitas, é um privilégio. Foi uma experiência a nível de gestão de equipa também que aguardo para vida, chegamos a ser nove pessoas nesse departamento, para mim foi um desafio –gerir recursos humanos não é fácil, mas acho que o segredo, que é aquilo que eu levo, e que levo daí em termos da equipa, é que se formos nós próprios na nossa relação com as pessoas, se tivermos respeito uns pelos outros,  se não tivermos medo de arriscar,  se nos der gozo puxar pelas pessoas e pô-las a dar o seu melhor, temos pessoas motivadas que por isso dão o melhor de si. 

 

Há algum trabalho ou algum projeto de comunicação desses tempos que a tenha marcado particularmente?

Sim. O primeiro projeto online da Fashion Clinic e o serviço de reservas online foram um desafio gigante, porque foi o primeiro projeto de venda online, e exigiu um conhecimento que tive que adquirir a nível dos próprios processos do e-commerce, como a nível da gestão de equipa porque era preciso fazer atendimento ao cliente, era preciso termos três fotógrafos a fotografar o tempo inteiro e gerir esse processo semanalmente para que todas as semanas estivessem a entrar peças novas e impecáveis como nós vemos, por exemplo, na Net-A-Porter. Menos do que isso para nós não era admissível,  portanto foi claramente um projeto que me marcou muito por toda a complexidade que exigiu. Outro projeto foi a mudança de identidade da Fashion Clinic quando fez 25 anos, um processo também muito complexo que exigiu mudança de imagem a nível transversal, e tudo isso teve de ser comunicado internamente, teve de ser comunicado aos clientes, escrever para esses clientes, comunicar o espírito da marca e pôr isso em palavras nossas, foi das coisas mais gratificantes que eu tive, acho que é algo que nos dá uma adrenalina enorme transcrever para o papel com emoção aquilo que uma marca é. Se nós não soubermos fazer com emoção podemos ser a melhor marca do mundo, mas a mensagem não passa e vamos ser mais uma marca no mercado.  Foi isso que eu tentei fazer na Fashion Clinic, foi de alguma forma contar sempre a história da marca um bocadinho na forma como nós apresentávamos a informação, e obviamente que tudo isto só é possível porque estive sempre ao lado de pessoas excelentes...

 

Em janeiro de 2015 criou a F.P.C. Consulting, uma empresa de comunicação que se destina a introduzir e comunicar pequenas e médias empresas no mercado de luxo. De que género de clientes estamos a falar e de que forma é feito este acompanhamento de inserção? Há uma maior proximidade entre a Filipa e os seus clientes, tratando-se de empresas de menor dimensão?

Quando criei a empresa apercebi-me, ou melhor apercebi-me disso e por isso criei a empresa, de que existe um conjunto de marcas muito bem posicionadas de classe alta e também média alta, em Portugal, que não tem estruturas de marketing internas porque têm estruturas pequenas como empresa, são focadas na parte comercial. O networking que eu tive oportunidade de construir nesses quatro anos em que estive na Fashion Clinic a esse nível, só com imprensa, com fornecedores, etc., acabou por me fazer perceber que com a experiência que eu tinha transversal na área de comunicação, poderia de facto ser uma mais-valia para essas pequenas empresas que tinham necessidade de comunicar para além do dono da marca que faz uns posts de vez em quando no Facebook, que foi como começou a parte digital, mas toda essa área como sabemos cresceu e evoluiu, e profissionalizou-se também. Estamos a falar de empresas de várias áreas distintas, moda, lifestyle, decoração, arquitetura, bebidas, às quais eu fiz uma proposta de serviço personalizada, que é aí que é a mais valia que eu considero que existe na FPC Consulting - eu sempre vi isso, foi algo que eu aprendi também com a experiencia que tive na área de luxo da moda: não há nada como sermos nós, eu tinha uma visão e tenho uma visão da comunicação como se a fizesse para mim, sempre fiz isso para as empresas onde trabalhei, sempre fiz como se fosse para mim mesma. E então a minha proposta de valor para essas marcas é: deixem-me ser um braço direito da vossa marca, como se da própria responsável de marketing me tratasse, ajudar a fazer a estratégia de comunicação da empresa e de, sem ter esse peso, poder ser um parceiro e poder ajudar a comunicar nas redes sociais, a fazer sites, a fazer convites, a organizar eventos, a fazer aquilo que estiver ao alcance de todo o universo que existe em comunicação dessa marca para a ajudar a atingir os seus objetivos. Penso que tem corrido muito bem, este um ano e meio que passou foi de facto muito positivo – vou-lhe ser franca, surpreendentemente positivo, nunca tive o objetivo de fazer da FPC Consulting uma agência grande, sempre quis fazer disto um serviço personalizado de consultoria de comunicação e é sempre isso que eu vou querer fazer.

 

Como é que alguém que trabalha por conta de outrem dá o passo de abrir uma empresa? Foi um clique, uma vontade? Era uma coisa que já queria há muito tempo?

Eu penso que fez parte de um processo de crescimento natural, de amadurecimento também. Quando nós sabemos que no sítio onde estamos provavelmente ou nos deixam dar outros passos, ou quando sentimos que o caminho aí ficou limitado, vamos então tentar pelos nossos próprios meios, e eu na altura foi uma questão de confiança, senti que se não houvesse oportunidade onde eu estava, podia ser um sinal que era altura de eu tentar pelos meus próprios meios e foi uma experiência fantástica até agora.  

 

Vamos agora falar de um projeto que a Filipa abraçou ainda mais recentemente. Desde novembro do ano passado que está envolvida no projeto VilacomVida, uma associação sem fins lucrativos que visa a inserção de “challenged people” na sociedade. Como podemos definir “challenged people”, o que abrange o conceito?

“Challenged people” são as pessoas que são permanentemente desafiadas como pessoas, pelo facto de terem algum tipo de incapacidade que os faz ter que caminhar mais para conseguir os mesmos objetivos que outra pessoa sem esse problema. Em termos objetivos, não estamos aqui a falar de doenças mentais nem estamos a falar de outro tipo de incapacidades motoras, estamos a falar de pessoas que têm algum tipo de incapacidade de défice cognitivo, mas que continuam a ser bastante úteis à sociedade e isso nós vimos pelo exemplo que elas têm no mundo inteiro.

 

Quais são os principais desafios das pessoas com este tipo de perturbação ligeira do desenvolvimento intelectual na nossa sociedade?

Há pessoas com, por exemplo, paralisia cerebral, que são um grande target desta nossa associação, pessoas que muitas delas nem défice cognitivo têm, mas têm uma paralisia cerebral que lhes dá algum tipo de incapacidade e por isso desvaloriza-os – não devia, mas desvaloriza-os – na corrida com outras pessoas para uma mesma função. Todas estas pessoas são pessoas com uma sede enorme de trabalhar. Há casos mundiais de sucesso de contratação de pessoas com espectros de autismo, por exemplo, que está provado que são ideais para determinado tipo de funções, para funções de rotina ou para funções em que se exige a necessidade de descobrir padrões de comportamento, e isto é importantíssimo, pode poupar fortunas às empresas. Pessoas que são cumpridoras, como muitas não são, e eu acho que é um paradigma que está a mudar no nosso mundo, que está completamente alinhado com aquilo que a União Europeia está a fazer, no sentido de aproveitar a capacidade dessas pessoas para a força de trabalho, para o crescimento da economia, versus a institucionalização dessas pessoas – está provado que, pelo menos, 15% das pessoas que estão institucionalizadas hoje em dia, e quando falo de institucionalizadas falo de pessoas que passam o dia numa instituição, tudo bem que tem as suas atividades mas são só atividades de ocupação de tempos livres, sem puxar pela cabeça, 15% dessas pessoas têm capacidade para serem autónomas e serem autónomas significa terem capacidade de viverem sozinhas, obviamente que com algum tipo de acompanhamento que possa existir, mas têm capacidade de viver sozinhas. Existe muito um obstáculo cultural na nossa sociedade, às vezes até a começar pelos próprios pais, numa pessoa que nasce ou com um cromossoma a mais ou com algum tipo de défice cognitivo porque houve um parto que não correu bem, ou por qualquer outra ordem de razão, que de repente é traçado o caminho dessa pessoa às vezes até como uma cruz da própria família, e isto não é verdade, isto está provado em todo o lado.

 

Como surgiu o projeto e o envolvimento da Filipa nele?

A VilacomVida surgiu porque uma senhora chamada Eulália Calado, que é responsável pelo Serviço de Neurologia Pediátrica no Hospital Dona Estefânia, lida há muitos anos com pessoas com problemas, e uma vez viu um caso na Europa de uma associação que criava emprego, que fazia com que estas pessoas com défice cognitivo ligeiro pudessem ser úteis a essa sociedade e serem autónomas. A filha, a Rita Prates, que eu tive a sorte de conhecer por outra amiga, e que numa altura na minha vida em que eu... O Manel tinha nascido há muito pouco tempo, tinha passado por uma operação ao coração, e eu lembro-me de ir correr, que é uma coisa que eu gosto muito de fazer, e de estar a pensar que gostava de fazer mais pelo Manel e gostava de ter um projeto que contribuísse para o futuro dele, e garanto que toca o telefone e a Rita ligou-me, naquele momento,  “Filipa, olha sem saberes foste incluída neste projeto,  quero por este sonho da minha mãe em prática, ela há anos que quer criar isto e tem um trabalho que não lhe permite dedicar-se a isto e eu quero realizar este sonho da minha mãe, e gostava de te convidar para ficares com a parte de marketing e comunicação, e para te juntares à equipa”, e eu fiquei feliz da vida, senti-me muito honrada e assim, com mais outras pessoas, também a maioria com experiências pessoais com pessoas, com crianças,  que foram convidadas para este projeto, decidimos reunir e criamos a Associação VilacomVida. O meu papel na Associação é enquanto membro da direção, somos 5 neste momento, e eu acabo por ser a pessoa que, pela inerência também da minha vontade pessoal para o projeto e pela disponibilidade que tenho para fazer uma gestão de horário compatível com uma entrega a esse projeto diferente de todas as outras pessoas na Associação, que estão a trabalhar por conta de outrem, consigo ter disponibilidade para ajudar a por este sonho de pé.

 

Há, evidentemente, uma lacuna na nossa sociedade em termos de conhecimento, aceitação e preparação para conviver com estas pessoas e proporcionar-lhes todas as condições a que têm direito. Enquanto organização, quais são os vossos grandes objetivos a curto e a longo prazo?

O nosso target são pessoas maiores de idade com perturbações do cognitivo a nível ligeiro. Neste momento, estamos em fase de conclusão de um protocolo com a Câmara de Castelo de Vide, através do Dr. António Pita, que é o Presidente da Câmara, que se propõe que seja o projeto pioneiro da Associação. Através desse projeto nós vamos recrutar, de momento já temos alguns candidatos, e estamos neste momento nessa fase de recrutamento de pessoas para que na Câmara Municipal de Castelo de Vide, no distrito de Portalegre, consigamos criar emprego para 10 pessoas, e que esse emprego faça com que elas consigam viver sozinhas, acompanhadas por técnicos, muitas vezes até por alunos que possam estar a estudar nestas áreas, e que possam ser monitores da introdução destas pessoas no mercado de trabalho para que sejam tomadas todas as medidas necessárias para que isto seja um projeto de sucesso e que cada percurso que for iniciado faça com que estas pessoas sejam mais realizadas, mais felizes, que estejam a trabalhar e a receber o seu ordenado. Isto é importantíssimo, é algo que as pessoas acham que não têm direito porque acham que são quase um peso, mas não, eles têm direito a receber o seu ordenado, a ter o seu dinheiro de bolso. Os próximos passos são esses, é algo que nós acreditamos que se concretize mesmo nos próximos meses, e felizmente temos uma Secretária de Estado para a Inclusão, a Dr.ª Ana Sofia Antunes, que tem tomado medidas extraordinárias para a inclusão social e a última das quais foi criar uma forma do Estado apoiar através da conceção de fundos para contratação de assistentes pessoais de forma a puderem acompanhar estas pessoas no seu dia-a-dia e então tornar possível a sua autonomia. E é aí neste momento que estamos, acreditamos que ainda este ano vamos ter novidades bastante grandes e acreditamos que o projeto vai ser de tal forma um sucesso que outros se seguirão, e a nossa ideia será gerarmos várias vilas com vida por este país fora.

 

A Filipa foi mãe há cerca de um ano, de um menino, o Manel, mas já tem duas filhas mais velhas, a Carolina e a Marta. Como foi viver novamente a experiência da maternidade, alguns anos depois?

Foi fantástica, é fantástica todos os dias. Do primeiro para o segundo filho há sempre uma diferença porque nós já não estamos tão preocupados, tão ansiosos em ver se fazemos tudo bem. Com os segundos filhos já é diferente, já são mais descontraídos... Então quer dizer, onze anos depois, que foi o caso, o Manel, não só da minha parte como da parte da família toda, do João o meu marido, dos irmãos, todos nós sabemos olhar para ele de uma forma mais observadora, já não pomos tanta tensão na relação, na forma como olhamos um filho, obviamente que nos cansamos um bocadinho mais, mas também temos outra maturidade para olhar, pelo menos eu sinto isso como mãe – não stresso nem um décimo das vezes que stressava, rio muito mais, brinco muito mais com o meu filho do que brincava e do que ria, sei gerir o tempo para poder aproveitar o melhor que eu tenho dele quando ele está na altura melhor para eu poder aproveitar o melhor que ele tem, é uma descomplicação a todos os níveis. Tudo é relativizado. Com um bebé com as caraterísticas que o Manel tem tudo fica muito mais simples na vida em tanta coisa ao pé daquilo que ele nos está a ensinar todos os dias. Eu lembro-me dele nascer e eu olhar para ele e dizer “o que é que tu nos vais ensinar? O que é que nós vamos aprender contigo?” e esta é a nossa postura para com ele, nós já conhecemos seis crianças – o João, meu marido, tem 4 e eu tenho 2- com 46 cromossomas, e agora temos uma criança que tem um cromossoma a mais, que nos vai trazer imensa coisa de novo.

 

O Manel nasceu com Síndrome de Down, que se carateriza pela presença de um cromossoma a mais. Como é que descobriram? Sobretudo, mais do que como descobriram, como lidaram com a situação desde o início?

Foi durante a gravidez... Eu fiquei em estado de choque, não consegui falar. Foi um processo, foi uma ecografia das 12 semanas em que houve uma prega da nuca aumentada, que é um dos primeiros sinais, não era muito aumentada por isso podia não ser um sinal em concreto, pelo que mantivemos a esperança que tivesse tudo bem, mas depois noutras ecografias havia ali uma questão com o coração que também parecia que não estava bem, e podia ser indicador de um problema cromossómico. Decidimos fazer logo a amniocentese, foi um processo difícil, a mim não me passava pela cabeça fazer o que quer que seja com os resultados que não fosse continuar a gravidez, mas de facto nós estamos numa família com mais crianças, havia mais oito meses de gravidez para gerir e acho que foi muito importante nós termos decidido fazer para saber com o que é que contávamos, para podermos preparar os nossos filhos para o que aí vinha e para nós nos prepararmos também. Soubemos o resultado dia 1 de dezembro de 2015, foi um dia horrível, foi um momento horrível, parecia que o mundo ia cair.... Lembro-me do sítio onde estava, lembro-me de estar a chover a potes, lembro-me de ver tudo preto à minha frente, um desespero, nunca tinha estado assim numa situação na vida.... Mas eu sempre tive uma saída, sempre acreditei numa luz ao fundo do túnel, tive ali muitos dias em que não consegui ver essa luz, nem eu nem o João o meu marido, estivemos sempre muito juntos nisto, foi uma coisa feita a dois, sem ser a dois eu não conseguia e com os nossos filhos também, muito. Nós tivemos uma conversa com eles, a dizer “preparem-se porque o ano que aí vem vai ser difícil, vai ser um ano em que vamos estar concentrados no Manel”, porque além do mais depois descobriu-se um problema de coração muito chato, que ele podia ter nascido sem um lado do coração e isso implicava uma vida horrorosa. No momento em que teve que ser tomada a decisão fez-se uma luz enorme, eu sou muito católica, havia muita muita gente a rezar pelo Manel em todo o lado do mundo, que eu não me canso de agradecer, e eu acho que foi graças a essas orações e a essa força das pessoas... Ainda ontem na missa eu agradeci a Deus ter-me dado ouvidos para ouvir a voz de Deus, que eu acho que foi a voz de Deus, que nós estávamos completamente desesperados, não sabíamos mesmo o que fazer, é uma situação horrorosa... Não era pelo problema da Síndrome de Down, que esse já estava ultrapassado, era pelo problema do coração. Era uma vida de hospital como nos diziam, eram três operações consecutivas que o faziam limitar-se em tudo, era um horror e na altura não avançamos com nada e no momento em que nós decidimos não avançar senti assim um raio de luz a cair em nós e a partir daí nunca mais nos passou pela cabeça o que quer que fosse pela sensação boa que foi realizar que tínhamos decidido avançar. Tudo isto foram milagres sucessivos; o Manel nasceu e o lado esquerdo do coração dele estava no limite para ser aproveitado e foi; não houve três operações, houve uma; ele hoje está ótimo, recuperou muito bem da operação, a seguir seguiu-se uma epilepsia horrível, das piores, que graças a deus mais uma vez foi descoberta a tempo, mais um milagre.... E aqui estamos. Ele comemorou um ano de vida, ri-se como se não houvesse amanhã, os irmãos estão felicíssimos, estão transformados – a forma como eles falam do irmão, a forma como eles deixam de pensar neles para pensar nele, como se juntam para ir comprar um presente para o irmão, porque eles todos são padrinhos, foi assim um milagre na nossa família no sentido de quando nós achávamos que estava tudo ótimo, sempre tivemos uma relação ótima entre todos, como é que é possível ainda poder ser melhor por isto...

 

Vocês alguma vez partilharam com eles a vossa ideia de que podiam por qualquer motivo ter que interromper a gravidez ou mantiveram isso só para vocês?

Eles foram percebendo que havia um problema de coração muito grave, que podia fazer com que a gravidez não continuasse porque o bebé podia não aguentar, e nós nunca escondemos, e é verdade, que o problema que ele tinha no coração podia fazer com que ele não aguentasse dentro da barriga. Obviamente gerindo a forma como nós dizíamos isto.... No caso deles, estiveram sempre ali connosco, ao nosso lado, sempre a dar-nos força, sempre com uma atitude incondicional para o que viesse, e sempre muito orgulhosos do mano que aí vinha. Em nenhuma altura eu senti que havia ou vergonha, ou... nada! Houve trabalhos feitos na escola sobre o irmão que ia nascer, a minha filha Carolina fez um trabalho na escola e comunicou à turma que ia ter um irmão com Síndrome de Down .... Foram coisas extraordinárias que nós conhecemos nos nossos filhos durante este ano que passou, antes dele nascer, depois dele nascer, foi uma experiência única a todos os níveis. Eu lia imensos blogs, falei muito com a minha irmã que vive em Moçambique, que era como se estivesse aqui, que me acompanhou hora a hora, minuto a minuto nesta gravidez... Uma pessoa está sempre ali duvidosa, depois quando nasce... É assim vum! Entra no nosso coração, é uma vida que se transforma, é uma forma de estar que se transforma, liberta o melhor que há em nós, que ás vezes ainda não se tinha revelado, e isto estende-se a toda à volta.

 

Que conselho gostaria de dar aquelas mães que neste momento estão a passar por isso, que acabam de descobrir que o filho pode ter um problema? O que é que gostaria de lhes transmitir? Claro que cada caso é um caso... 

O que eu diria era para se deixarem ouvir, para serenarem o mais que conseguirem, para não se precipitarem em nada.... Para estarem em silêncio para se ouvirem, para tentarem sentir o bebé. Não se bloqueiem a nada nem por ninguém, porque a resposta está dentro de nós. Eu não critico ninguém, nunca o vou fazer, acho que isto é uma decisão muito pessoal, mas sei que ela veio da forma que veio e com a força que veio porque veio de dentro. Por mais que houvessem mil pessoas à volta, nós temos que saber ouvir-nos e temos que saber conversar e saber falar em casal, e temos que falar os dois e temos que rezar muito – se a pessoa for crente que reze muito porque ajuda, acalma sempre um bocadinho – e mais tarde ou mais cedo, a verdade que tiver que existir vem ao de cima. Para não desesperarem, o desespero é uma situação muito... quase incontornável numa situação destas, mas se se virem numa situação destas, vão ler histórias felizes, sigam o @happymanel , o Instagram que eu criei – eu sou o oposto disso, mas eu criei, e por isso eu agora tenho uma função nova na vida, que é mostrar que é possível ser feliz com um bebé especial como o Manel. Há outros blogs fantásticos, há o “Los Amados”, que é de um amiga minha, há mil situações ótimas para ver e isso ajudou, porque a pessoa fica ali um bocado à defesa, mas ajuda. Porque é o mundo real... E era o que dizia no outro dia numa coisa que eu li, alguém com Síndrome de Down a falar, nada do que se diz neste mundo sobre o Síndrome de Down ou muito pouca coisa é dita por pessoas com Síndrome de Down... É tudo de pessoas à volta. São aqueles que dizem que eles devem ser exterminados, porque o mundo fica menos perfeito com eles, são os que dizem que nunca vão ser autónomos.... Ouvem-se as maiores barbaridades do mundo, tudo pessoas que garantidamente não têm experiência com pessoas com Síndrome de Down e que não tem Síndrome de Down. Feuerstein, que foi um conhecido psicólogo, criou uma teoria chamada Plasticidade do Cérebro Humano, na qual eu acredito completamente, e o que diz é que se nós estimularmos estas crianças desde o princípio elas são capazes daquilo que nós nunca imaginamos que elas fossem capazes de fazer, de ter a sua família, inclusivamente de casar, de serem autónomas e de serem felizes. Portanto, leiam, leiam, investiguem, vejam coisas sobre esta realidade – vai-se ver de tudo, um lado e outro da moeda, mas aquele lado que for o que tiver mais a ver com a pessoa e com aquilo que ela está a sentir, é aquele que ela vai ouvir melhor.

 

A Filipa vem de uma família numerosa e construiu também uma família numerosa. É possível conciliar uma vida familiar ativa com uma vida profissional de sucesso? Qual é o truque?

Sem segredos nem dramatismos nenhuns, temos que dar mais o litro. No caso do Manel ser o Manel, iria sempre obrigar a uma mudança qualquer de rumo na minha vida profissional, porque ele está em primeiro lugar e é preciso disponibilidade para as terapias e para essas coisas todas, as terapeutas boas não são muitas e nós temos que estar ajustados a esses horários. No meu caso, não é fácil, como não é fácil no caso de qualquer mãe nesta situação, e leva o seu tempo – o Manel tem um ano e este ano foi muito difícil porque teve vários acidentes de percurso, com a epilepsia, com a operação ao coração, e não consegui se calhar ainda reorganizar-me como gostava e espero conseguir agora voltar a fazê-lo, portanto houve aqui algum momento de mais pausa. Tive a sorte de ter uma atividade profissional que me permitiu gerir essa pausa enquanto foi necessário, e ir fazendo algumas coisas, mas sempre geríveis. Vou fazer o melhor que posso e consigo para conciliar agora estas três vertentes: a profissional - FPC Consulting, o meu lado mãe e o meu lado mais de entrega a uma causa, que é a VilaComVida.  

 

Entre a família e a carreira, a Filipa consegue ter tempo para cuidar de si? Há um espaço que lhe permite estar sozinha, ter as suas rotinas, promover os seus hobbies pessoais? É possível encontrar tempo para isso tudo?

É, é. É possível nós impormos a nós próprias e impor aos outros que esse tempo tem que existir. Nunca, em todo este processo, eu senti que me ia esquecer de mim. Se não dá para ir arranjar as mãos hoje vou amanhã, ou se não posso arranjar amanhã, limo em casa, ponho um creme de mãos, mas eu olhar para mim e sentir-me mal não vai acontecer. E tudo é possível. Gosto muito de correr, é o meu principal hobby, gosto muito de ir ao ginásio, e consegue-se. Se for às 6h da manhã vou às 6h da manhã, se for às 7h vou às 7h... Mas eu sei que isso me faz ganhar o dia, faz-me estar mais bem-disposta – quando não consigo ir porque é mesmo impossível, às vezes há alguém que sofre por tabela [risos] porque isso é importante para o meu bem-estar. Tudo é conciliável, nunca vai ser agradecido por ninguém - nem no trabalho nem em casa, em lado nenhum, nunca ninguém nos vai agradecer o tempo que nós nos esquecemos de nós, portanto, sem sermos egoístas e tentando balançar as coisas, com bom senso, esse equilíbrio é o melhor. E eu acredito que consegui gerir, tenho conseguido gerir e espero conseguir sempre.

 

Também com a ajuda do João...

Sempre com a ajuda do João. O João é a pessoa que mais me compreende neste mundo inteiro, é aquela pessoa que eu não preciso de dizer que ele já percebeu, não preciso sequer quase de pensar porque ele já se antecipou. É uma pessoa que está ali para mim incondicionalmente, é uma pessoa que é impressionante o que ele tem por prioridade ver-me feliz, é... Uma sorte na minha vida. Podia não ter corrido bem, quando há um divórcio pode não correr bem, e até aí eu me sinto abençoada, aliás está aí no topo dos critérios que me fazem dizer que eu sou uma pessoa com muita sorte, é pelo João na minha vida. 

 

Onde é que se imagina daqui a 10 anos?

Daqui a 10 anos eu gostava de estar a viver no campo, a ver o projeto VilaComVida uma realidade. Gostava de estar no campo já com o João, o meu marido, a poder gerir também a parte dele profissional, que ele é uma pessoa que tem muito para dar para além do profissional, gostava de o ver feliz nesse aspeto, mais realizado também por ter essa outra parte a trabalhar, fazer as coisas que ele quer fazer, como trabalhar um bocado mais a parte de psicologia, até por causa do Manel e tudo.... Em termos de espaço físico é isto. Em termos abstratos, é ver os nossos filhos felizes com o que estão a fazer, realizados, poder estar numa situação que os ajude se eles precisarem, mas passando sempre a ideia que eles têm que trabalhar para terem aquilo que querem, e ver o Manel obviamente uma criança feliz, no seu caminho de autonomia, cognitivamente bem, sem problemas em termos intelectuais daquilo que foi a epilepsia que ele teve, que consegue ser feliz onde estiver, na escola, a fazer o seu caminho integrado na sociedade, que o aceite quando ele tiver 10 anos ou 11 neste caso, e no caminho para a frente, que é o mais difícil a partir dessa idade. 

 
 

Obrigada à Filipa por ter aceitado o nosso convite, por toda a disponibilidade e simpatia antes, no decorrer e depois da entrevista, e por nos ter gentilmente cedido as fotografias. Obrigada também ao Evolution Hotel Lisboa, por nos ter permitido fazer a entrevista no seu espaço.