A Mulher antes da Liberdade

 
Fonte: Google

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Quando abordamos o 25 de Abril atualmente, celebramos sempre (e com razão!) o fim de uma ditadura e o início de um período próspero para a liberdade. Celebramos também mudanças positivas de todo um povo, mas raramente falamos do papel da mulher antes e depois da Revolução dos Cravos. É verdade que nós, mulheres, somos parte do povo e que hoje em dia é impensável ser de outra forma, mas sabiam que antes do 25 de Abril a mulher tinha, perante a lei, o estatuto de semi pessoa? Esta contemplação jurídica da mulher implicava que o homem detinha um controlo quase totalitário da sua vida e decisões, e até mesmo da sua morte, já que estavam previstas grandes atenuantes no caso de um marido assassinar a mulher por flagrante adultério.

As diferenças entre os dois sexos eram muitas - começavam nos salários, com a estimativa de que as mulheres ganhavam menos 40%, mas prolongavam-se ao extremo do homem poder anular, junto da entidade patronal, o contrato de trabalho da mulher, da mulher necessitar de uma autorização do marido para sair do país, do marido ter o direito de abrir a correspondência da mulher. E, no caso das hospedeiras de bordo, das telefonistas (até 1940) e das enfermeiras (até 1963), era mesmo negado à mulher o casamento já que era malvisto socialmente uma mulher casada exercer estas funções. O próprio direito ao voto era impensável, salvo se se tratasse de uma mulher viúva e que tivesse estudos que correspondem à nossa atual escolaridade obrigatória, algo que sabemos naquela altura ser um privilégio de muito poucos.

O Estado Novo fomentou a imagem de uma mulher submissa e subjugada, sem que muitas vezes as mulheres se apercebessem que o eram. A mulher perfeita era aquela que cuidava de forma exímia da casa e executava todas as tarefas domésticas na perfeição, agradando em tudo ao marido, sem nunca se queixar ou desleixar as lides domésticas. A mulher nada mais era do que a sombra do homem, e esta realidade é bem próxima de nós – os nossos avós foram educados nesta sociedade, e mesmo que haja exceções, a maior parte das mulheres antes de Abril viviam desta forma. Não nos importa generalizar, porque certamente há exceções, nem entrar em moralismos ou julgamentos, mas importa refletir sobre esta mudança, que ainda não findou.

Os movimentos feministas que hoje proliferam em todo o lado tiveram início, no que toca ao nosso país, em janeiro de 1975, com uma manifestação em Lisboa influenciada pela obra d’ As Três Marias, como ficaram conhecidas as escritoras Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. A obra destas três escritoras, “Novas Cartas Portuguesas”, publicada em 1972, denunciava o papel da mulher em Portugal e todas as discriminações que lhe estavam associadas, assim como as injustiças da guerra colonial. Esta obra fala de mulheres livres, que questionam a sua identidade e expressam o seu desejo de terem acesso a novas ideias e conceções. E se podemos considera-la um marco incontornável no próprio feminismo português, não a devemos reduzir a tal, já que o papel de dar voz à mulher e de mostrar às próprias mulheres que têm direitos sobre si mesmas não deve ser reduzido de forma algum a apenas uma obra ou manifesto feminista.

Há mais manifestações e greves a ter em conta neste período e muitas mulheres que lutaram afincadamente pelos nossos direitos cuja história deveríamos conhecer. Mas mais do que contar uma história, hoje quero também fazer uma reflexão. O papel da mulher deu um salto gigante depois do 25 de Abril, com todas as circunstâncias políticas e sociais que esta data acarreta. A mulher já não é a sombra do homem; já não é obrigada a ficar em casa e cuidar da casa e da família; já não pode ser subjugada ao poder de um homem. A mulher vota, trabalha, escolhe, decide. Mas a mulher continua a ser discriminada em muitos setores neste país, e não é por pessoas da idade dos nossos avós.

Atualmente, as mulheres ganham menos 16% do que os homens e ocupam menos cargos de responsabilidade nas empresas. São facilmente postas de parte por haver a hipótese de engravidarem e muitas vezes são alvo de assédio sexual no seu local de trabalho, sem alguém que as defenda. Isto acontece mais vezes do que pensamos, em situações que muitas vezes nem identificamos como tal, e vindo justamente de pessoas que cresceram e se educaram no pós 25 de Abril. Neste sentido, eu convido todos e todas vocês a tirarem 5 minutos do vosso tempo neste dia de todas as liberdades, a contemplarem as mulheres que vos rodeiam e a celebrarem o facto de hoje elas, nós, sermos consideradas pessoas, com direitos protegidos por lei. Mas convido também a que pensemos que a liberdade do sujeito é algo ténue, que facilmente pode mudar, e que há um longo caminho a percorrer até a mulher ser vista definitivamente como um par e nunca como um ser inferior. E este caminho, somos nós que o temos de talhar, hoje, amanhã e sempre.

Por um mundo em que o “Lá em casa manda ela, mas nela mando eu” seja só um passado, cada vez mais distante.