Diário de Viagem: à descoberta do Perú

 
 

Perú. O país da grande civilização Inca. O país do sol. O país da cor. O país do Pollo Asado. O país de um povo humilde e caloroso.

O Perú abraça-nos assim que o avião aterra em Lima. A música alegre, o táxi duvidoso e as pessoas morenas, com os olhos rasgados e vestidas com padrões coloridos dão-nos a certeza: será uma viagem inesquecível.

Começo por Lima, capital deste país culturalmente riquíssimo, mas com sinais de pobreza evidentes à medida que se passeia pelas ruas e praças da cidade. De um lado temos o mar, ideal para a prática de surf, e do outro temos as colinas onde estão os chamados pueblos jovenes (favelas). Viver Lima é, sem dúvida, explorar os mercados e o artesanato, apanhar muitos táxis cuja porta não fecha e os vidros não abrem, vaguear pelas ruas e comer frutas locais como as mini bananas (muito doces) ou as chirimoyas. É também dançar nas discotecas, onde a música latina nunca acaba e os pés dos peruanos nunca param de mexer numa alegria que nos contagia noite dentro. Para tirar a barriga de misérias, provar um pollo asado é imperativo e garanto que nunca mais vão querer Franguinho da Guia nesta vida (se alguma vez o quiseram).

 
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De Lima, voamos até Cusco, cidade que mais me fascinou e onde mais me diverti. Aconselho vivamente a estadia num Party Hostel como o Loki Cusco, onde se conhecem pessoas de todo o mundo e as longas noites de diversão são garantidas (wink wink). O tempo é matreiro e tanto está sol como somos surpreendidos por uma chuva torrencial, por isso eu diria que uma gabardine até aos pés e umas galochas não são má ideia. Em Cusco, para além da visita obrigatória à Plaza de Armas, também se pode subir até um lugar com história inca, construído em harmonia com os astros e chamado de Sacsayhuaman (isso mesmo), dotado de uma energia incrível até aos olhos dos mais cépticos. Para esta aventura é preferível ir acompanhado de um habitante local, que será capaz de explicar e exemplificar tudo melhor. Pelas ruas de Cusco encontram-se meninas com os trajes tradicionais peruanos e senhoras que passeiam tranquilamente os seus Lamas como se de um cachorro se tratasse. Claro que estas atrações servem apenas para o turista ceder umas moedinhas, que a nós não causam mossa mas a eles posso garantir que fazem toda a diferença. A mulher peruana, sem excepção, traz os seus pertences ou o seu bebé numa bolsa colorida atada às costas. 

 
 
 
 
 
 
 
 
 

De Cusco apanho o comboio para Aguas Calientes, onde começa a aventura até ao Machu Picchu, cidade inca que começou a ser construída na segunda metade do século XV e que albergava entre 500 a 700 pessoas permanentes. Quando se chega ao Machu Picchu, respira-se um ambiente misterioso e quase mágico. É inacreditável como foi possível construir tal estrutura, onde o trabalho hidráulico se mantém original e com quase 600 anos. O Templo do Sol, que deu nome ao livro do escritor belga Hergé, foi construido em harmonia com os corpos celestes e tem duas janelas direcionadas exactamente aos dois solestícios. Os incas eram atletas, tanto que para ir à casa de banho tinham que correr já que estas se localizavam fora da cidade. Os andinos eram especialistas em medicina natural, conhecendo mais de 5000 plantas e as suas respetivas propriedades curativas. A coca é uma dessas plantas, perfeitamente industrializada, pode-se comprar em todo o lado e tomar como chá ou em forma de rebuçados. É verdade, bebi muito chá e comi muitos rebuçados e só me fez bem. A coca neutraliza o cansaço, as dores, a sede e facilita a circulação do sangue e respiratória. Foi ela que me ajudou a ambientar-me à altitude, que não foi pêra doce. Os andinos sabiam o que faziam, minha gente! 15 copos por dia e estavam prontos para correr 7 maratonas que punham qualquer Nelson Évora deste país a arfar e a questionar a sua vocação. 

 
 
 
 
 
 
 
 

Custou, mas foi. 2700 metros de altura. Esbaforida, mas sobrevivi. Nem sabia que tinha comprado a parte da subida da montanha mais alta (Waynapicchu); quando descobri, ri-me e disse: “O quê? Subir até lá em cima? Mais depressa faço o pino e rebolo aqui mesmo.” O mais engraçado é que nem fiz o pino, nem rebolei; subi tudo a cair para o lado e desci a benzer-me. A dica? Quem tem medo das alturas, que suba até deixar de ter. Uma vez começada a subida, voltar para trás já não é opção. A vida é feita de ultrapassar medos e barreiras que nos impomos a nós mesmos e a sensação lá em cima vale muito mais do que qualquer vertigenzita (pequenitita e insignificantezita)!

Depois disto, e como achei que ainda não tinha sido suficiente, armada em alpinista de terceira categoria, voltei para Cusco e aventurei-me numa escursão à Rainbow Mountain com nada mais nada menos que 5000 metros de altitude. Coisa leve, como podem imaginar. 

 
 

Os meus pulmões de peixe aflito não ajudaram em nada nesta subida, nem tão pouco a minha fraca preparação física, por isso deixei-me levar em cima de um cavalo ao longo de 8km de caminho - de outra forma teria sido ainda mais impossível. Dica: preparação a nível físico e de altitude é essencial, mas roupa e calçado adequado também. As minhas Adidas em vias de extinção em nada ajudaram à festa e quase congelei com os muitos graus negativos que se faziam sentir à medida que nos aproximavamos da montanha. Escusado será dizer que me escaldei como nunca antes me tinha escaldado e quase me deu o piripaque quando cheguei ao cume: muitos chocolates e água foi o que me salvou de um desmaio eminente. Hoje rio-me, mas nos momentos em que o cavalo escorregava nas pedras molhadas (sim, porque também choveu a potes) e ameaçava mandar-me recambiada para o jardim das tabuletas, não tive assim taaaanta vontade de rir. Tirando isto, vivi uma experiência fantástica e observei paisagens de cortar a respiração (literalmente, no caso).

 
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Fiz esta viagem em Dezembro. O Peru deixou e deixa muitas saudades. Foi, de facto, uma viagem inesquecível, repleta de momentos e experiências caricatas, onde aprendi muito sobre os peruanos mas também sobre mim mesma. Aventurem-se nas viagens que sempre sonharam fazer e de lá trarão uma bagagem para a vida, palavra de honra. 

Mathilde Diogo Misciagna